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Torre de Babel

Torre de Babel

Calígula: a terra misturada com o fogo

Nos meses seguintes à execução do ditador Sejano (31 d.C.), o terror voltou a invadir as ruas de Roma. Iniciaram-se processos contra todos os apoiantes da insurreição liderada por Sejano contra o imperador Tibério (14-37 d.C.). A justiça de rua perseguiu e, em alguns casos, matou vários indivíduos e famílias acusados de atos conspiratórios, mesmo que a sustentação dessas acusações fosse vaga. A partir do ano 33, já depois da morte de Agripina e do seu filho Druso (respetivamente, a esposa e o filho do general Germânico, pai do futuro imperador Calígula), aos quais não foi concedido sequer um túmulo digno, Tibério foi alvo de ódio visceral de toda a cidade e começaram a circular em relação à sua augusta pessoa todo o tipo de rumores e narrativas que lhe atribuíam vícios repugnantes e crueldades refinadas.

 

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Calígula governou o Império Romano entre os anos 37 e 41 d.C.

 

O único filho de Agripina que se salvou foi Calígula, protegido primeiro pela sua bisavó Lívia e mais tarde pela avó Antónia. No ano 31, foi chamado a Capri para viver na residência imperial, pois Tibério necessitava de proteger o último descendente da família de Júlio César face aos planos de eliminação urdidos por Messalino Cota e Sexto Vestílio, companheiros de Sejano. Dois anos antes de morrer, o imperador nomeou Calígula e o seu neto Tibério Gemelo como herdeiros, mas era razoavelmente óbvio que o primeiro, mal herdasse o poder, exterminaria toda a competição com o último herdeiro legítimo.

 

Conhecedores dos atos atrozes posteriores à morte de Tibério, os historiadores da Antiguidade justificam a eleição de Calígula com uma certa vaidade póstuma. De acordo com esta versão, o imperador moribundo sabia antecipadamente que Calígula reinaria com brutalidade, pelo que a má conduta do seu sucessor tenderia a engrandecer o seu próprio reinado por comparação. O cronista Dião Cássio coloca na boca de Tibério o verso de um poeta trágico anónimo no qual este dizia "depois da minha morte, que a terra se misture com o fogo", como se o imperador tivesse previsto a loucura que caracterizou o comportamento de Calígula, o único sobrevivente direto de Germânico.

 

Sobre a morte de Tibério aos 78 anos de idade, circularam diversas versões em Roma. Naturalmente, na cidade das intrigas, também se sugeriu que Calígula teria acelerado a agonia do imperador, privando-o de alimento. Tácito conta, por seu lado, que foi Macro (chefe dos pretorianos) quem deu a ordem para asfixiar Tibério, ao passo que Suetónio fornece uma terceira versão, segundo a qual Calígula matou o imperador com veneno ou estrangulou-o com as suas próprias mãos.

 

O cronista judeu Flávio Josefo confidencia para a posteridade que, antes da sua morte, indeciso sobre a nomeação do sucessor, Tibério terá confiado a decisão à divina providência. Aconselhado por um adivinho a ceder o trono ao primeiro que entrasse no seu quarto na manhã seguinte, o imperador pediu ao tutor do seu neto, Tibério Gemelo, que o trouxesse ao amanhecer. No entanto, Calígula apresentou-se primeiro, ludibriando o método do moribundo.