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Torre de Babel

Torre de Babel

Casa Flamenga no Porto

Beneficiando duma privilegiada situação geográfica, na margem dum grande rio já perto da foz e, portanto, do mar, a cidade do Porto cedo assumiu uma vocação marítima, tornando-se um importante entreposto de comércio marítimo e fluvial. Para este progressivo desenvolvimento da cidade muito contribuiu o espírito empreendedor e mercantil dos seus moradores, que no rio e no mar viam um extraordinário veículo para a sua expansão comercial. Foram importantes as trocas comerciais com outros povos, sendo frequentes as viagens de barcos que saíam e entravam pela barra do Douro, em intercâmbio de mercadorias com outros povos do norte da Europa, nomeadamente da Flandres. E muitos foram os mercadores dessas paragens que acabaram por fixar-se na cidade, em belas moradias, cuja influência cultural bem depressa se fez sentir na cidade e no modo de viver dos «tripeiros».

 

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A influência da arquitetura flamenga está bem patente nesta antiga construção escondida num beco atrás da Sé. Ela é bem significativa do caráter aventureiro dos mercadores portuenses e dos seus contatos com a Flandres.

 

Um bom exemplo desta influência é a casa de estilo gótico-flamengo existente bem no coração do burgo antigo, no Beco do Redemoinho, uma ruela sem saída perto da Calçada de Vandoma, nas traseiras da capela-mor da Sé.

 

Considerada uma das mais antigas do Porto, esta «jóia» da arquitetura medieval portuense foi sofrendo, ao longo dos séculos, os inevitáveis efeitos do desenvolvimento urbano, ao sabor das modas do tempo e dos gostos dos donos que teve, um dos quais o jurisconsulto e genealogista Cristóvão Alão de Morais, desembargador da Relação no século XVII e autor da «Pedatura Lusitana».

 

Nesta casa descobrem-se ainda hoje alguns vestígios da arquitetura flamenga: colocação da chaminé ao cimo da fachada e bem no meio desta (foi retirada há tempos, mas é ainda visível em gravuras antigas), janelas góticas, com remate trilobado (das quatro primitivas, restam apenas três), portas em ogiva (originalmente eram duas, mas uma delas foi tapada e substituída por uma janela com alto entablamento), etc.

 

Parece ter sido construída na primeira metade do século XIV, dela havendo numerosas referências no «Censual do Cabido do Porto», precioso códice organizado em 1542 por ordem do bispo D. Frei Baltazar Limpo. A atestar a antiguidade da casa, o medalhão ou mísula existente entre a porta e as duas janelas trilobadas da esquerda, com uma cabeça humana pouco relevada e, em cada um dos bordos, cinco pequenas esferas.

 

Tê-la-á edificado talvez algum mercador do burgo que terá viajado pela Flandres e copiado o tipo de construções que por lá viu.