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Torre de Babel

Torre de Babel

Vasco da Gama e a descoberta do caminho marítimo para a Índia

Quando partiu para a Índia, Vasco da Gama (1460-1524) levava consigo dezoito criminosos condenados. Esperava-se que fossem usados para estabelecer amizade com os novos povos e se sobrevivessem seriam perdoados. Se foram ou não, não sabemos, mas não é provável, porque mais de metade dos passageiros não regressou.

 

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O que sabemos é que Vasco da Gama, escolhido em parte pela sua firmeza e implacabilidade, afastou muita gente devido exatamente a esses atributos e à sua crueldade, demasiada até para aquela época, e tornaram-no, bem como aos seus homens, odiado em muitos locais onde desembarcou.

 

Durante quase setenta anos os Portugueses haviam trabalhado na viagem marítima para a Índia e tinham-se feito grandes planos, incluindo a construção de novos navios (dois dos quais construídos por Bartolomeu Dias). As mercadorias eram embarcadas para serem comerciadas e para serem oferecidas. Não sabiam que os seus presentes eram sem valor comparados com as riquezas que iriam ver.

 

Vasco da Gama nasceu provavelmente no ano em que morreu D. Henrique, o Navegador (1460), numa família nobre, num pequeno porto português. Dedicou-se ao estudo de frotas e de «negócios marítimos», reunindo conhecimentos sobre navegação e matemática, que levariam à sua escolha para capitanear a expedição de 1497.

 

Quatro naus partiram a meio de julho, com Vasco da Gama a comandar a São Gabriel e o seu irmão, Paulo da Gama, a São Rafael. Eram cerca de cento e sessenta homens a bordo.

 

Em vez de se manter junto à costa, onde teria de se defrontar com as zonas de calmaria e a corrente da Guiné, com a sua habitual coragem e perícia, afastou-se para o Atlântico a partir das ilhas de Cabo Verde. Estiveram três meses sem avistar terra, muito mais do que Colombo, que esteve apenas trinta e três dias.

 

Quando Vasco da Gama voltou a navegar para a costa africana desembarcou em Santa Helena, mesmo acima da Cidade do Cabo, onde o contato inicialmente amistoso com os Hotentotes se transformou em beligerância e em que o comandante ficou ligeiramente ferido.

 

Também ao desembarcar na baía de Mossel, onde Bartolomeu Dias já estivera, deparou com a hostilidade dos nativos. Apesar disso, mantiveram-se lá quase duas semanas, onde esvaziaram a nau dos mantimentos transferindo-os para as outras naus.

 

Então, Vasco da Gama subiu a costa este de África parando em vários locais. Deu a Natal, na costa sudoeste, este nome porque lá chegou nesse dia. Sentiu-se encorajado a prosseguir mais para norte e deu à terra que descobriu o nome de «Terra da Boa Gente», devido aos nativos amistosos que encontrou na foz do rio Limpopo.

 

Em Moçambique, encontrou quatro navios árabes «carregados de ouro, prata, cravinho, pimenta, gengibre, anéis de prata... pérolas, jóias e rubis». O sultão desdenhou dos presentes que lhe foram oferecidos e pediu tecido escarlate que os portugueses não tinham.

 

Enquanto os muçulmanos locais julgaram que os visitantes eram também muçulmanos foram amigáveis, mas, mais tarde, as relações deterioraram-se e a crueldade dos portugueses deve ter sido responsável por isso. Mais uma vez, em Mombaça, não foram bem recebidos, o que não é de admirar se se disser que torturaram dois homens com azeite a ferver até confessarem «que havia uma revolta planeada para atacar o navio». Os marinheiros conseguiram, contudo, arranjar fruta fresca de que tanto precisavam para acalmar o escorbuto que os afligia. A cura para o escorbuto sugerida por Vasco da Gama era esfregar as gengivas com urina e lancetar as feridas gangrenadas.

 

Falsos Amigos

 

Em Mombaça, um piloto hindu foi descoberto na corte do amigo rei de Melinde. «O rei usava uma túnica de damasco debruada a cetim verde e um rico turbante.» Dali partiram para Calecute, na Índia, numa viagem de vinte e três dias, acreditando erradamente que o piloto era cristão. Mesmo ao chegarem à Índia julgaram estar numa comunidade cristã e descreveram um templo com «muitos santos... pintados nas paredes da igreja e que usavam coroas».

 

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Vasco da Gama perante o Samorim de Calecute, por Veloso Salgado (1898)

 

Depois de terem recebido bem os viajantes, os Indianos voltaram-se contra eles. Isso porque os seus presentes não eram aceitáveis (não podiam confirmar a reputação de Portugal como país poderoso) e porque os Muçulmanos conspiraram contra eles. Três meses depois, tendo metido a bordo alguns hindus, Vasco da Gama partiu da Índia perseguido por barcos armados.

 

Durante os três meses de viagem de regresso à África, morreram mais homens de escorbuto e a ameaça de motim esteve sempre presente. Em Mogadíscio tiveram de queimar a São Rafael porque metia água e tinham falta de mão de obra.

 

Vasco da Gama chegou a Lisboa, em julho de 1499, dois anos depois de ter partido. Nalguns lugares fizera amigos, mas fizera também muitos inimigos. O que fizera, sem sombra de dúvida, fora provar a capacidade dos navios portugueses e aplanar caminho para que o pobre país de pescadores que era Portugal obtivesse a supremacia comercial sobre os Venezianos e Genoveses. Navegara 44 500 quilómetros e voltara com um carregamento de especiarias.