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Torre de Babel

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Vida e Reinado de D. Carlos

D. Carlos (1863-1908), o Diplomata, reinou entre 1889 e 1908.

 

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A inconfundível paixão pelo mar e pela pintura é um dos traços mais marcantes da multifacetada personalidade de D. Carlos de Bragança, o penúltimo rei de Portugal. Filho primogénito de D. Maria Pia de Sabóia e de D. Luís, chamava-se Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Francisco de Assis José Simão.

 

D. Carlos foi educado para ascender ao trono, tendo os pais feito questão de participarem ativamente na sua instrução. Em paralelo, foi acompanhado de perto por especialistas. Com Júlio Joubert Chaves, por exemplo, aprendeu as primeiras letras e no desenho foi seu mestre Teodoro da Mota. Seguiu-se o latim, o grego, a geografia, a história e o alemão. Foi também um aluno atento às lições de música, ginástica, física, pintura e zoologia. Chegou, inclusive, a conviver com a elite cultural e intelectual da sua geração, que incluía o grupo dos Vencidos da Vida.

 

Desde cedo, manifestou uma inclinação muito especial para as artes, para o desporto e para as atividades ligadas à natureza. Em particular, destacava-se a devoção ao mar – herdada do pai –, que acabou por marcar a sua obra científica e artística. Colaborou em diversas investigações oceanográficas, principalmente a bordo do iate Amélia. A 1 de setembro de 1896, iniciou a primeira de 12 campanhas oceanográficas na costa nacional, com vista a analisar a fauna marinha.

 

Sabendo ser a atividade piscatória fundamental para Portugal, o monarca dedicou-se à catalogação dos peixes e das aves, tendo publicado o Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal. Foi gratificado a nível internacional pela Sociedade Zoológica de Londres, pelo Museu de História Natural de Paris e pela Sociedade Espanhola de História Natural. Na sua presença, foi inaugurado, a 20 de maio de 1898, o Aquário Vasco da Gama, onde se encontra parte do seu espólio. Ficou também reconhecido pelas aguarelas e pastéis, sendo assinaláveis as suas representações do mar português.

 

D. Carlos foi um homem de muitos gostos e, indiscutivelmente, um bom observador. Nas caçadas, outro dos seus passatempos, vestia um traje de caçador alentejano. Em público, e para quem não o conhecia, o rei era contido, parecia ter uma máscara que o tornava altivo e impenetrável. Era corpulento e tinha bom trato. Na vida privada, era uma pessoa afável, terna, bondosa e humilde.

 

A 22 de maio de 1886, casou com D. Maria Amélia de Orleães, filha dos condes de Paris. A rainha desempenhou um papel importante na assistência aos tuberculosos. A criação do Museu dos Coches também teve o seu cunho. Como D. Carlos gostava particularmente de Cascais, o casal passou aí bons momentos. Do matrimónio nasceram D. Luís Filipe, que viria a ser assassinado com o pai, D. Maria, que teve poucas horas de vida, e D. Manuel, futuro D. Manuel II, último rei de Portugal (1908-1910).

 

Em 1889, D. Carlos assumiu o trono português, reinado que praticamente se iniciou com o ultimato inglês (1890), motivado pelo conhecido Mapa Cor-de-Rosa, que obrigou os portugueses a abandonar vários territórios africanos. Mais tarde, foram normalizadas as relações com a Inglaterra e reatadas as ligações com o Brasil.

 

O soberano teve o mérito de devolver a Portugal o prestígio a nível internacional, conseguindo trazer às terras lusas vários reis e chefes de Estado, entre eles Eduardo VII de Inglaterra, o imperador Guilherme da Alemanha, Afonso XIII de Espanha (1903) e Emílio Loubet, presidente de França (1904). D. Carlos também visitou diversos países, tendo sido especialmente bem acolhido em França. Era bastante admirado no estrangeiro e tido como excelente diplomata.

 

Ao longo do reinado, enfrentou graves problemas políticos, que muito influenciaram o enfraquecimento do regime monárquico e possibilitaram o reforço do ideal republicano. Assistiu, aliás, à primeira tentativa de implantação da República, a 31 de janeiro de 1891, que ocorreu no Porto.

 

O seu reinado ficou marcado por um parlamentarismo rotativo que não garantiu estabilidade política. Em 1906, permitiu o avanço de João Franco para a chefia do governo, o qual, pondo de parte anteriores promessas de descentralização da máquina administrativa e de liberdade de imprensa, se lançou numa ditadura, encerrando com a Assembleia Legislativa. A partir desse ano, D. Carlos praticamente não governou.

 

A repressão de João Franco não agradou a republicanos, mas também não conseguiu grandes adeptos entre os monárquicos, que queriam manter a defesa das liberdades constitucionais. Assim, o rei enfrentou diversas greves e fortes críticas por parte da imprensa, devido, sobretudo, aos adiantamentos à Casa Real e à repressão política, vendo muitos monárquicos a passarem para as hostes republicanas.

 

A situação ganhou contornos mais preocupantes quando foi descoberta, em janeiro de 1908, uma conspiração contra a Coroa. Foram efetuadas diversas detenções, que no entanto não travaram o sentimento republicano. Com o clima de tensão a agravar-se, a 31 desse mês, D. Carlos assinou o decreto que permitia a deportação do reino para os opositores ao regime. No dia seguinte, os acontecimentos precipitaram-se e deu-se o Regicídio.

 

Vindo do Paço Ducal, em Vila Viçosa, apesar da instabilidade política e social, D. Carlos optou por seguir na carruagem real, o que se revelaria fatídico naquele fim de tarde do dia 1 de fevereiro de 1908. Como de costume, o povo aglomerava-se nos passeios, escondendo, sem o saber, dois embuçados (Manuel Buíça e Alfredo Costa) que, à saída do Terreiro do Paço, dispararam certeiramente contra o rei e o seu filho, D. Luís Filipe, que não resistiram.