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Torre de Babel

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Vida e Reinado de D. Luís

D. Luís (1838-1889), o Popular, reinou entre 1861 e 1889.

 

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D. Luís foi o segundo filho da rainha D. Maria II e de D. Fernando II. O trono de Portugal foi-lhe entregue depois da morte do seu irmão D. Pedro V, mais velho do que ele cerca de um ano.

 

A história cognominou-o de o Popular, mas as suas aptidões podiam ter-lhe consagrado outro cognome. Teve uma vida de estudioso, de artista e, segundo testemunhos da época, também de amores. Era detentor de uma personalidade moderada e tolerante, tendo sido, durante o seu reinado, mais uma figura de cultura do que política. Os jogos políticos não o seduziam e em nada se adequavam ao seu espírito conciliador e prudente.

 

Destinado à carreira da Armada, a sua educação foi rigorosa, tendo ficado sob a responsabilidade de mestres qualificados da época. Dedicou muito do seu tempo aos estudos, mas nada mais o satisfazia do que a arte, para a qual revelou uma grande sensibilidade. O desenho e a pintura fizeram parte da sua formação, devido à influência de D. Fernando, do qual, também, herdou a veia de rei-artista. A pintura veio, assim, a fazer parte da sua vida, tal como a música. Compunha e tocava piano e violoncelo.

 

O domínio de várias línguas e o seu gosto pela literatura levaram-no a traduzir obras para português. As suas traduções de Shakespeare – Hamlet, O Mercador de Veneza, Ricardo III e Otelo – feitas entre 1875 e 1885 e reeditadas em 1956, pela Fundação da Casa de Bragança, foram o seu principal legado.

 

Apesar da arte ser a sua paixão, D. Luís alimentava outros prazeres. Contemplava o mar e, porventura, era nele que buscava inspiração para a sua pintura e música. Também apreciava uma boa refeição, sempre acompanhada com pão e manteiga, e ao fim do jantar acendia um charuto.

 

D. Maria Pia de Sabóia, filha de Vítor Manuel II, rei de Itália, foi a noiva escolhida pelo monarca. Deste matrimónio, realizado em 1862, nasceram D. Carlos – futuro rei de Portugal – e D. Afonso.

 

O monarca encontrou nesta companheira de vida uma esposa fiel e uma mãe dedicada, mas, acima de tudo, uma mulher com uma personalidade muito vincada. Segundo relatos da época, D. Maria Pia chegou a enfrentar o marechal-duque de Saldanha, após o golpe militar, por este ter ofendido o rei. Também se contava que ao tomar conhecimento do incêndio no teatro Baquet, no Porto, se deslocou para lá, apesar do mau tempo que se fazia sentir, para ajudar as vítimas.

 

A determinação e coragem da rainha foram comprovadas na forma como lidou com os casos amorosos do marido. Constava que, por vezes, perdia a sua postura elegante e, alimentada pelos ciúmes, adotava comportamentos furiosos com as mulheres que lhe poderiam estar a roubar o afeto do marido. D. Maria Pia não conseguia sofrer em silêncio e, como boa italiana que era, depressa a sua meiguice se transformava em ira quando se sentia ameaçada.

 

Sobre o rei, a esposa dizia que, embora fosse um homem calmo e conciliador, que apreciava o acolhimento do lar, "era um pouco doido, aludindo a certas aventuras de amor". E, apesar de ter tentado levar uma vida discreta, nem sempre o conseguiu. Atribuiu-se ao soberano uma relação amorosa com a esposa de um conhecido oficial do exército e uma outra com a atriz Rosa Damasceno. Embora tivesse tentado mantê-las em segredo, estas acabaram por se tornar públicas. Deste último caso, contava-se que numa das noites em que o monarca foi ter discretamente com a atriz, o silêncio foi interrompido pelo hino real tocado em piano. A partir de então, a mesma música repetiu-se sempre que D. Luís a visitava.

 

Mesmo sabendo que o marido a traía, D. Maria Pia manteve-se fiel ao seu papel de esposa e, na hora da morte do rei, mais uma vez, revelou-se uma mulher de grande fibra. Presenciando a doença que incapacitava o marido, nunca o abandonou nos últimos momentos de vida. Colocou-se ao lado dele, de dia e de noite, a confortá-lo, quando se encontrava em permanente estado de agonia e dolorosamente consciente. Falava-lhe carinhosamente em italiano, segurando as suas mãos, e refrescava-lhe o rosto, na tentativa de lhe aliviar um pouco a dor.

 

O sofrimento permanente do rei foi sentido por toda a família e pelos íntimos da corte. O filho D. Carlos, numa carta dirigida ao seu secretário particular, o conde de São Mamede, escreveu: "Isto aqui vae de mal a peior, creio que se passar d'hoje, já com certeza não passa d'amanhã – estou profundamente triste". D. Luís faleceu virando o rosto para o mar que tanto admirava. A rainha sobreviveu-lhe, mas tempos difíceis se seguiram. D. Maria Pia, assistindo ao assassinato do filho, D. Carlos, e do neto, D. Luís Filipe, enlouqueceu.

 

Infelizmente, nem mesmo depois da morte do soberano a família real se libertou do fantasma dos seus amores extraconjugais. Logo que assumiu o trono, D. Carlos recebeu uma carta de uma amante secreta do pai: "Sou casada com um dos mais distinctos do exército, sou mãi, tenho uma posição definida na sociedade e quis o mal fadado distino que tivesse tido a fraqueza de ter tido amores com sua Magestade o Senhor D. Luiz!".

 

Apesar da carta lhe ter sido entregue nos primeiros dias de fevereiro de 1890, esta já havia sido escrita antes da morte do pai. Confrontado com este acontecimento, D. Carlos quis logo saber de quem se tratava e pediu ao conde de São Mamede para se incumbir dessa tarefa. Embora a identificação da amante não tenha sido revelada, sabe-se, contudo, que escreveu a carta numa atitude desesperada, devido à ausência de notícias.

 

As intervenções escassas e prudentes de o Popular não podem ser interpretadas como um alheamento dos assuntos políticos. A postura que manteve ao longo do reinado refletiu a sua personalidade e, por isso, deve antes ser visto como um exemplo de monarca constitucional. Sempre respeitou as liberdades públicas e defendeu a integridade do Reino.

 

Apesar de ter desempenhado as funções reais com prudência, o seu reinado não escapou a algumas agitações políticas e culturais. No plano político, ocorreu, em 1868, o levantamento popular – Janeirinha –, que contestava o agravamento dos impostos. As suas consequências vieram a ser desastrosas, levando, inclusive, à queda do Ministério de Joaquim António de Aguiar. Pouco tempo depois, a paz do Reino veio a ser novamente perturbada com a insurreição militar do marechal-duque de Saldanha – a Saldanhada –, que reivindicava a demissão do governo e a entrega do poder.

 

Foi também durante o reinado de D. Luís que se assistiu ao aparecimento do Partido Progressista, pela fusão dos Partidos Histórico e Reformista, iniciando, assim, o rotativismo governativo entre este partido e o Regenerador.

 

No que se refere às perturbações populares, salientou-se a Questão Coimbrã, que colocou frente a frente a velha e a nova geração literária, e a interrupção, pelo governo, da atividade das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, a qual esteve rodeada de várias personalidades, entre as quais Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de Queirós.

 

Apesar destes acontecimentos, os 28 anos que D. Luís ocupou o trono foram, numa visão geral, de acalmia e de prosperidade em vários domínios. O seu reinado foi rico em termos de obras públicas do fontismo. Assistiu-se ao alargamento de estradas, linhas férreas, túneis e de diversas inaugurações, como das pontes D. Maria Pia e D. Luís, ambas no Porto.

 

No plano cultural, realizaram-se as comemorações do tricentenário da morte de Camões e foram publicadas obras literárias, que ainda hoje são consideradas exemplos singulares. A imprensa conheceu um período de desenvolvimento com a fundação de novos jornais, como, por exemplo, o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, O Primeiro de Janeiro, O Século e a Ilustração Portuguesa.

 

Para além disso, registaram-se em Portugal avanços técnicos e científicos, bem como diversas iniciativas de caráter económico, como a Exposição Internacional do Porto. A governação de D. Luís também ficou marcada por medidas que contribuíram para o progresso moral do país, destacando-se a abolição da pena de morte para os crimes civis.

 

A nível externo, salientou-se a política aplicada em torno da exploração e da defesa dos interesses em África. Realizaram-se várias expedições ao território africano, por Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Henrique de Carvalho, com o intuito de alargar o domínio português. Em consequência desta expansão ultramarina surgiu a Conferência de Berlim e, depois, o célebre mapa cor-de-rosa.