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Torre de Babel

Torre de Babel

Vida e Reinado de D. Pedro IV (I do Brasil)

D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil (1798-1834), o Rei Soldado, reinou entre 26 de abril e 2 de maio de 1826.

 

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Filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, foi batizado com o nome de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.

 

Foram-lhe atribuídos dois cognomes. Para os portugueses o Rei Soldado, por ter tido uma participação ativa nos combates em defesa das ideias liberais. Para os brasileiros, o Libertador por, a 7 de setembro de 1822, perto do rio Ipiranga, ter lançado o grito "Independência ou morte".

 

Desde muito cedo, o jovem príncipe, que sofria de epilepsia, manifestou ter um temperamento impulsivo, bastante voluntarioso e gostava de fazer apenas aquilo que a sua vontade ditasse. D. Pedro era alto e bem constituído. Tinha a face corada, boca carnuda, olhos vivos e o cabelo era forte aos caracóis, entre o loiro e o ruivo.

 

A sua educação, ao contrário do que acontecia em relação aos príncipes herdeiros, foi muito descurada. Muito deficiente, de facto, tendo D. Pedro ocupado os seus dias em cavalgadas e caçadas, deixando para segundo plano os estudos. As primeiras letras foram-lhe ensinadas pelo mestre Monteiro da Rocha, ainda em Portugal. No Brasil, teve como mestres o poliglota João Rademaker e, após a morte deste, o frei António da Arrábida, de cujas lições o jovem fugia sempre que podia. Ainda assim, aprendeu inglês com o padre irlandês João Joyce, depois reitor do Colégio de São Patrício, e francês com Boiret, professor do Colégio dos Nobres.

 

Senhor das suas vontades, as birras eram-lhe toleradas, devido à sua condição de futuro rei, uma vez que se acreditava que, futuramente, já no trono, convinha que soubesse mandar e não obedecer. Apesar de não ter sido o primeiro filho do casal real, por morte do seu irmão D. António, em 1801, passou a herdeiro do trono.

 

Tinha D. Pedro nove anos quando a família real, devido às invasões francesas, se refugiou no Brasil. A situação afetou profundamente o futuro rei, assim como a toda a comitiva. Apesar de inicialmente contrariado e descontente com a nova casa, aos poucos foi-se afeiçoando à cidade do Rio de Janeiro, que se havia tornado na capital do reino.

 

Durante a adolescência e juventude, foi um rapaz alegre e bem disposto. Apreciador de música e poesia, chegou a compor várias obras. Algumas delas foram tocadas em cerimónias da Corte, em igrejas e até numa sala de espetáculos em Paris.

 

Perante uma personalidade tão festiva, era fácil os súbditos gostarem de D. Pedro, apesar de lamentarem a sua falta de educação, defeito esse que o próprio reconhecia. Tinha perfeita consciência das suas falhas. Quando apresentou o seu primogénito, D. Pedro terá proferido a seguinte afirmação: "Este será inteligente!...".

 

Aos 19 anos casou com a filha do imperador da Áustria, Francisco I (II da Alemanha), a princesa Leopoldina, que lhe deu sete filhos. Apesar da aparente boa relação que mantinha com a esposa, era um homem dado a paixões e não se coibia de dar azo aos seus sentimentos. Teve vários romances com damas da corte, cantoras e bailarinas. De entre todas, aquela que parece ter conquistado, de facto, o seu coração foi Domitília de Castro, a quem deu o título de marquesa de Santos e com quem teve quatro filhos. Depois da morte de D. Leopoldina, casou em segundas núpcias com D. Amélia de Beauharnais, dama francesa parente de Napoleão, que lhe deu uma filha.

 

No domínio político, apesar de moderado, D. Pedro aderiu aos ideais liberais. Em sequência da Revolução Liberal de 1820, D. João VI regressou a Portugal, nomeando D. Pedro regente do Brasil, qualidade na qual teve de gerir o conflito entre os que pretendiam alcançar a independência e os que a repudiavam. Desobedecendo à ordem do pai para voltar para Portugal, deixou-se conquistar pelos ideais de libertação, contrários aos desejos do rei e aos interesses do reino. O seu empenho na causa que abraçara foi importante para a independência da então colónia portuguesa.

 

A 7 de setembro de 1822, perto do rio Ipiranga, declarou: "É tempo! Independência ou morte! Estamos separados de Portugal!". Para a História, o ato ficou conhecido como o "Grito do Ipiranga". Aclamado imperador do Brasil a 12 de outubro de 1822, outorgou a primeira Constituição do Brasil em 1824, mas a independência só seria reconhecida por Portugal no ano seguinte.

 

Daí em diante, nem tudo correria como D. Pedro pretendia. Ao ter aceitado a dupla entidade de imperador do Brasil e rei de Portugal, após a morte do seu pai, teve início uma série de desentendimentos com os liberais brasileiros que, para além de tudo, já tinham mais dificuldade em tolerar o feitio difícil do imperador.

 

Em Portugal, após a morte de D. João VI, a questão da sucessão ficava em aberto. D. Pedro, como filho primogénito e herdeiro natural ao trono de Portugal, tinha duas opções: permanecia no Brasil como imperador e deixava que o seu irmão D. Miguel subisse ao trono português como rei absolutista ou regressava a Lisboa para governar, aliás, como era desejo dos liberais lusos.

 

Apesar de ter governado com o título de "Rei de Portugal e dos Algarves" apenas escassos dias, D. Pedro IV tomou duas decisões de grande importância para o futuro do país: outorgou uma Constituição a Portugal e abdicou dos seus direitos a favor da filha, D. Maria da Glória, com a condição de que ela casasse com o tio D. Miguel, seu lugar-tenente, e que todo o país jurasse a Carta Constitucional que ele oferecia à nação. Poderia assim permanecer no Brasil, enquanto D. Miguel, após casar com a jovem sobrinha, governaria, de facto, mas de acordo com os ideais liberais. Porém, o irmão do imperador do Brasil, apesar de ter concordado com as condicionantes impostas e de ter jurado a Carta Constitucional, não respeitou a palavra dada e ocupou o trono como rei absoluto.

 

Ainda no Brasil, em 1831, D. Pedro abdicou da coroa brasileira a favor do seu filho, D. Pedro de Alcântara, de apenas cinco anos. O episódio que originou este acontecimento atesta o espírito impulsivo do imperador. Consta que os militares lhe pediram que cedesse na demissão de um ministro. D. Pedro, categoricamente, respondeu "Antes abdicar! Antes a morte!". De seguida, recolheu-se num quarto para, pouco tempo depois, surgir com um papel na mão, dizendo "Aqui têm a minha abdicação. Estimo que sejam felizes".

 

Liberto das suas responsabilidades, voltou-se então para o Velho Continente para defender os direitos da filha e vingar a causa liberal. Em 1832, retomou o título de duque de Bragança e fez-se regente de D. Maria II. Passou por Paris e Londres e dirigiu-se para os Açores. A 8 de julho desse ano, desembarcou com os "7500 bravos do Mindelo" na praia de Pampelido, tendo no dia seguinte entrado no Porto. A causa liberal triunfou e D. Miguel foi obrigado a assinar a Convenção de Évora Monte, a 27 de maio de 1834 e a partir para o exílio.

 

Todavia, a vitória não traria a acalmia que se poderia esperar e setores mais radicais acusá-lo-iam de complacência em relação à facção vencida, em especial ao seu irmão. Em agosto de 1834, as Cortes confirmaram a regência de D. Pedro, pouco antes de D. Maria atingir a maioridade. Vítima de tuberculose, o Rei Soldado acabou por falecer aos 36 anos, no Palácio de Queluz, no mesmo quarto que o vira nascer.

 

Se a sua vida tivesse sido um pouco menos agitada, D. Pedro teria grandes probabilidades de se tornar num dos mais notáveis monarcas compositores da nossa história. Não é novidade que a Casa de Bragança tinha uma grande apetência para as artes, em especial para a música, de que são exemplo os trabalhos de D. João IV e de D. João V.

 

Os primeiros ensinamentos que o rei-imperador recebeu em forma de notas musicais foram obtidos já no Brasil, por três notáveis compositores: o padre José Maurício Nunes Garcia, Marcos Portugal e Sigismund von Neukomm, este último considerado como o melhor aluno de Joseph Haydn.

 

Ainda hoje, as composições de D. Pedro são escutadas em algumas cerimónias, tanto em Portugal como no Brasil, tanto em manifestações de cariz religioso ou cívico. São de sua autoria o importante Credo, para solistas, coro e orquestra, Te Deum e alguns dos seus múltiplos hinos e marchas, entre os quais se destacam o Hino da Independência do Brasil e o belo Hino da Carta, que foi o hino nacional português de 1834 a 1910.

 

Como político, foi uma personalidade muito forte, odiado por uns e amado por outros. Admirador da ação de Bolívar na América do Sul, ambicionava ser libertador de povos, como o atesta a frase que proferiu quando desembarcou em Arnosa de Pampelido: "Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar".

 

Mas foi no longo e penoso cerco do Porto que as suas qualidades pessoais mais se destacaram. Com os seus homens cercados, a passar dificuldades, defendeu-se com bravura, partilhando os perigos e privações dos soldados. Com os seus homens, cavava trincheiras, acudia aos feridos e lutava como simples combatente.

 

De Alexandre Herculano surgiu a maior homenagem dada a D. Pedro IV. Considerou-o, a par de Mouzinho da Silveira, "o único homem público que deixou em Portugal uma marca inextinguível".

 

O primeiro imperador do Brasil e quarto rei de nome Pedro em Portugal foi sepultado em São Vicente de Fora mas, por vontade sua, o coração ficou na Igreja da Lapa, na cidade do Porto. Posteriormente, os seus restos mortais foram trasladados para o Brasil, exceto o coração que permanece na igreja portuguesa.