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Torre de Babel

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Vida e Reinado de D. Pedro V

D. Pedro V (1837-1861), o Esperançoso, reinou entre 1855 e 1861.

 

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Filho primogénito da rainha D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, é provável que na monarquia portuguesa não tenha existido um príncipe tão bem preparado para governar como D. Pedro. Tanto D. Maria como D. Fernando fizeram questão de que o jovem, na companhia do irmão D. Luís, viajassem pela Europa, tendo por fim alargar os horizontes dos príncipes. Assim, D. Maria projetou um longo plano de estudos para os filhos, que terminaria com uma longa viagem pelos países onde estivera exilada.

 

Aos 10 anos de idade, foi ministrado ao futuro D. Pedro V o estudo de latim através de Martins Bastos. Dois anos depois, dominada a língua, já traduzia autores latinos e escrevia cartas nessa língua. Prosseguiu, então, com os estudos de grego, retórica e filosofia, ministrados por António José Viale, e inglês, ensinado por Grovely. Apesar de ter revelado notáveis capacidades nas letras, o príncipe tinha uma notória aversão à matemática, disciplina na qual nunca se salientou.

 

D. Maria II morreu em 1853, ao dar à luz o seu décimo primeiro filho. De uma forma inesperada, D. Pedro foi proclamado rei, aos 16 anos. Perante a menoridade do filho, D. Fernando assumiu a regência do reino durante dois anos, até o legítimo herdeiro completar 18 anos.

 

No seguimento dos desejos manifestados pela mulher, D. Fernando foi extremamente cuidadoso com a educação de D. Pedro, ao prepará-lo para o cargo de rei, complementando a formação do príncipe com aulas de pintura e de desenho.

 

Um ano depois da morte da mãe, D. Pedro visitou, com o irmão D. Luís, a Inglaterra, a Bélgica, a Alemanha, a Holanda e a Áustria. Em 1855, entrou em contato com a realidade vivida em França, no reino de Nápoles, na Santa Sé e na Suíça. Estas viagens vieram complementar os ensinamentos valiosos dos professores, de entre os quais se destaca Alexandre Herculano. Desta forma, o monarca tinha um conhecimento sem par da arte de governar, tanto no nosso país como além-fronteiras.

 

D. Pedro V foi, de facto, um homem de superior inteligência e de excepcional cultura, como o atestam o Diário que escreveu no decorrer das suas viagens pela Europa, os artigos que publicou nas revistas Militar e Contemporânea e pelas cartas de grande valor literário que enviou ao conde de Lavradio e ao príncipe Alberto de Inglaterra.

 

Era um jovem com uma personalidade muito forte e equilibrada, extremamente culto e ciente das responsabilidades que tinha ao seu cargo. Infelizmente, não teria tempo nem a tranquilidade necessária para poder mostrar tudo aquilo que tinha para oferecer aos súbditos.

 

A 29 de abril de 1858, D. Pedro V casou com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen por procuração, assinada em Berlim, na igreja de Santa Edviges. A princesa chegou a Portugal pouco tempo depois e, a 18 de maio do mesmo ano, celebrou-se o enlace real em Lisboa.

 

A simpatia e bondade da nova rainha cativaram desde logo o povo português. Também o rei se enamorou por D. Estefânia, amor esse que era correspondido pela esposa, que lhe retribuía as atenções com a afirmação de que eram feitos um para o outro. Porém, este estado de graça durou pouco tempo. A 17 de julho de 1859, a jovem rainha faleceu vítima de difteria, o que provocou um enorme golpe no monarca.

 

O casal não teve filhos e D. Pedro V não voltou a casar, deixando por resolver a questão da sucessão. Em homenagem à rainha amada, o rei fundou, em Lisboa, o hospital que foi batizado com o nome da esposa.

 

Como governante, D. Pedro V foi um liberal de espírito moderado, tendo-se distinguido pela superior consciência dos problemas do país. Estudava com minúcia as deliberações governamentais propostas, para que ninguém o pudesse acusar de assinar algo de que não tinha conhecimento. Este tipo de postura perante a governação do país revelou que o monarca se recusou a ser um mero "rei-carimbo".

 

D. Pedro governou, de facto, de uma forma individualizada, o que lhe valeu uma grande popularidade. Exemplo da atenção que dava às opiniões e queixas dos seus súbditos foi a resolução inédita de colocar, à porta da residência real, uma "caixa-verde", fechada, da qual apenas o monarca tinha a chave, onde as pessoas podiam deixar as suas queixas.

 

As iniciativas estatais que visavam o desenvolvimento do país recebiam o apoio e, em alguns casos, o patrocínio de D. Pedro V. Também as questões de dignidade humana preocupavam o soberano. Durante o seu reinado foram abolidos os castigos corporais. Apesar de não apreciar totalmente as decisões governativas de Fontes Pereira de Melo, apoiava as suas iniciativas de progresso, espelhadas na inauguração da primeira via férrea, de Lisboa ao Carregado.

 

Durante o seu reinado, foram criadas também muitas escolas de ensino primário, algumas das quais eram financiadas pela Coroa. Consciente da necessidade do ensino das letras a um nível superior, a D. Pedro se deve a criação do Curso Superior de Letras (atualmente a Faculdade de Letras). De entre os professores que ministravam o curso, constava Rebelo da Silva, amigo do monarca, que por vezes assistia às suas aulas.

 

Foi igualmente durante o reinado de D. Pedro V, e com a sua colaboração, que foi criado o Observatório Astronómico da Ajuda e se efetuou a introdução do telégrafo elétrico para o estrangeiro e do sistema métrico. Foram ainda construídas numerosas estradas e empreendimentos notáveis para o progresso económico do país.

 

Porém, nem tudo correu bem durante o seu reinado. O monarca pôs à prova toda a sua habilidade diplomática em questões como os melindrosos diferendos com a Inglaterra pelos domínios em África e o humilhante litígio da questão do apresamento do navio francês Charles et Georges. Todas estas questões foram resolvidas por D. Pedro V tendo em mente o bem estar da nação e a manutenção da paz com os outros países.

 

Também as epidemias e desastres naturais que assolaram o reino puseram à prova D. Pedro V que, perante tamanha adversidade, conseguiu conferir alguma tranquilidade aos portugueses. O país foi, entre 1853 e 1857, assolado por duas epidemias, a cólera-morbo e a febre amarela. Seria de esperar que, para se proteger, o monarca se isolasse dos locais de contágio. A sua atitude foi exatamente contrária. O rei fez questão de passar pelos vários hospitais do reino, e mantinha conversas com os doentes, não se coibindo de lhes pegar na mão para lhes dar um pouco de alento. Se a popularidade de D. Pedro era já de nota, a partir de então foi amplamente reforçada.

 

Poucos dias depois de ter passado uma temporada de caça em Vila Viçosa, corria o ano de 1861, o rei e os seus irmãos D. Augusto e D. Fernando adoeciam de febre tifóide, segundo o parecer dos médicos. Por sua vez, a população desconfiava que o rei e os infantes haviam sido envenenados. Esta desconfiança gerou uma amotinação por parte das gentes de Lisboa.

 

D. Fernando morreu a 6 de novembro desse ano e D. Pedro V faleceria pouco depois, com apenas 24 anos de idade. Terminava desta forma abrupta o reinado de o Esperançoso, permanecendo a sensação de que, para além de se ter perdido um grande homem, a nação não pôde usufruir, em pleno, das capacidades governativas do rei de Portugal.