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Torre de Babel

Torre de Babel

Vida e Reinado de D. Maria II

D. Maria II (1819-1853), a Educadora, reinou entre 1826 e 1828 e depois entre 1834 e 1853.

 

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Filha de D. Pedro IV e da arquiduquesa D. Leopoldina de Áustria, nasceu no Rio de Janeiro, onde a corte portuguesa estava instalada em terras brasileiras. Foi a primogénita do imperador do Brasil e de sua primeira esposa, tendo recebido o título de Princesa da Beira e posteriormente Princesa Imperial do Brasil.

 

Quando seu avô D. João VI morreu, em 1826, D. Pedro era o legítimo herdeiro da coroa portuguesa, mas como desempenhava o papel de imperador do Brasil, veio a abdicar do trono a favor de D. Maria, depois de ter outorgado a Portugal a Carta Constitucional. As duas condições que estabeleceu para a abdicação do trono português foram o casamento da filha, atingida a maioridade, com o tio D. Miguel e que este jurasse a Carta Constitucional.

 

Em 1828, a princesa deixou o Rio de Janeiro com destino a Viena, para ser educada na Corte austríaca e legitimar a sua presença numa potência europeia influente e fortalecer o Partido Liberal. Nesse ano, D. Miguel regressou ao reino e aclamou-se rei absoluto, rejeitando D. Maria como noiva e rainha. Então esta rumou para Inglaterra, onde foi recebida com honras reais e, pela primeira vez, representou o povo português e fê-lo de uma forma exemplar.

 

A sua educação foi entregue à duquesa de Palmela e a D. Leonor da Câmara e os seus estudos prepararam-na para ser rainha. Foi formada para manter uma posição firme em relação aos princípios constitucionais e um caráter rígido mediante as adversidades. Regressou ao Brasil, em 1829, com a sua madrasta D. Amélia de Beauharnais, mas, pouco tempo depois, voltou para a Europa com o pai e, entre Paris e Londres, finalizou os seus estudos.

 

Em 1833, D. Pedro mandou ir buscá-la a Paris, pois adivinhava-se a vitória liberal. Um ano depois foi proclamada rainha de Portugal e dos Algarves, no mesmo ano em que assistiu à morte do pai.

 

O primeiro matrimónio da monarca foi com Augusto de Leuchtenberg, realizado em 1835, mas apenas durou dois meses, pois o príncipe veio a falecer, o que levou D. Maria II a negociar de imediato um novo casamento, desta feita com o príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, primo do rei belga Leopoldo I e da rainha Vitória de Inglaterra.

 

Do casamento com D. Fernando nasceram 11 filhos, entre os quais D. Pedro e D. Luís, futuros reis de Portugal. No entanto, D. Maria II viria a falecer durante o parto do décimo primeiro filho, que viria, também, a morrer poucas horas depois.

 

Durante o seu reinado foram criados liceus em todas as capitais de distrito, os planos dos estudos secundários foram atualizados e surgiram as Escolas Médico-Cirúrgicas e as Academias de Belas-Artes de Lisboa e do Porto, entre outras instituições escolares. Foi também estabelecida a obrigatoriedade do ensino primário para as crianças residentes em localidades onde existissem escolas. Este importante desenvolvimento do ensino em Portugal durante a governação de D. Maria II fez com que lhe fosse atribuído o cognome de a Educadora.

 

No decorrer da sua governação impulsionou-se, igualmente, a cultura portuguesa e a proteção das artes. Assistiu-se à construção do Palácio da Pena, do Teatro Nacional D. Maria II e ao restauro de monumentos como os conventos de Tomar e de Mafra, do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém.

Vida e Reinado de D. Miguel

D. Miguel (1802-1866), o Absolutista, reinou entre 1828 e 1834.

 

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Um dos monarcas mais marcantes da dinastia de Bragança, de nome completo Miguel Maria do Patrocínio João Carlos Francisco Assis Xavier de Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo, era o terceiro filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina.

 

Pouco tempo da sua infância foi passado em Portugal, pois seguiu com a família real para o Brasil em 1807, quando tinha apenas cinco anos. Ali permaneceu até 1821, altura em que regressou a terras lusas.

 

D. Miguel tornou-se um belo rapaz, com feições regulares e distintas – possuía testa alta, o que segundo a tradição popular, denotava inteligência. Era alto, elegante, tinha pele morena e olhos escuros e grandes. Possuía um inegável poder de sedução que transparecia para todos os que com ele conviviam.

 

Com temperamento impulsivo, era adepto de caçadas e touradas e não hesitava em entrar na arena para desafiar o touro. Mais do que a vida no paço real, seduzia-o a presença assídua em tabernas. A boa figura, a força e a bravura faziam dele uma figura com carisma, quer fosse amado ou odiado.

 

A grande lacuna de D. Miguel relacionava-se com a falta de formação. Apesar de ter aprendido teologia e inglês, não era um jovem dotado nem ligado aos ensinamentos escolares, tendo tido uma instrução pouco rigorosa.

 

O seu caráter decidido foi, desde o início, marcado pelos ideais absolutistas. Filho dileto da rainha, posicionou-se contra os liberais, hostilizando o pai. Sempre esteve, aliás, mais próximo da mãe, que teve uma influência notória na vida do príncipe. Mãe e filho queriam "restaurar, com um absolutismo radical, o Portugal antigo e fiel, inimigo dos pedreiros-livres e entusiasta da religião e da monarquia", como refere Oliveira Martins.

 

Em 1823, D. Miguel encabeçou a Vilafrancada e, um ano depois, a Abrilada. A derrota de ambos os levantamentos não lhe deixou outra possibilidade que não fosse o exílio, acabando por se fixar em Viena de Áustria. Na realidade, a decisão de enviar D. Miguel para o estrangeiro partiu de D. João VI, que por este meio conseguia afastar o filho e tudo o que ele representava e, em paralelo, oferecia-lhe uma boa oportunidade para se instruir. Era do conhecimento geral a fraca instrução de D. Miguel em áreas importantes para alguém que sonhava chegar ao Poder.

 

Em 1826, D. Miguel resolveu aceitar a proposta do irmão, D. Pedro, imperador do Brasil, que o queria ver casado com a sua filha, D. Maria da Glória, e que este governasse segundo as leis liberais, até que a princesa ascendesse ao trono. Segundo o plano estabelecido por D. Pedro, D. Miguel jurou a Carta Constitucional e celebrou os esponsais com D. Maria da Glória. Porém, quando chegou a Portugal, manifestações populares aclamavam-no como monarca absoluto.

 

No cais de Belém, a 2 de fevereiro de 1828, uma verdadeira multidão de admiradores esperava ansiosamente pelo seu desembarque, enquanto gritava: "Viva D. Miguel I, rei absoluto!". Foi neste clima favorável a D. Miguel e aos seus ideais absolutistas, que D. Carlota Joaquina o convenceu a esquecer o compromisso e a passar a dirigir o país sem prestar contas. Assim aconteceu. Apesar de ter jurado fidelidade à Carta Constitucional, acabou por deixar para trás a promessa feita ao irmão e eterno rival.

 

Convocou as cortes ainda em 1828, tendo os Três Estados aclamado D. Miguel como rei de Portugal e dos Algarves. Desta forma, embora não tivesse naturalmente direito ao trono, veio a sentar-se nele, iniciando perseguições aos liberais. Estes eram silenciados e afastados dos cargos políticos. Muitas vezes, as perseguições eram levadas a cabo pelas próprias populações ao serviço do regime absolutista.

 

Apelidado de "terror miguelista", este período resultou em muitas mortes e prisões. Viveu-se de tal forma um clima de insegurança, que as cadeias estavam repletas de presos. Muitos fugiram, escondendo-se para escapar ao clima de pavor. Por isso se diz que D. Miguel ao aceitar o trono se transformou no rei de um partido e não de um povo.

 

Em 1832, começaram os confrontos entre D. Miguel e D. Pedro, que nesse ano regressou a Portugal para fazer triunfar o liberalismo. D. Miguel era uma verdadeira fonte de inspiração para os soldados que combatiam pela sua causa, apesar de serem mal remunerados. Na hora da rendição, em 1834, muitos imploraram ao rei absolutista que não baixasse as armas e mantivesse a luta. A rendição, de qualquer forma, só foi aceite depois de D. Miguel ter tido a garantia de que os seus companheiros de armas não iriam sofrer qualquer tipo de represálias.

 

Antes de partir para o exílio, D. Miguel deixou no reino todas as jóias da coroa e da sua propriedade pessoal para saldar as dívidas de guerra, não fazendo qualquer exigência pessoal. Pouco depois, deixou o país para não mais regressar. D. Pedro, apesar da oposição dos liberais, concedeu-lhe o direito a uma pensão anual de 60 contos. Porém, logo que se instalou em Génova, D. Miguel recusou-se a honrar os princípios da Convenção de Évora Monte, perdendo o direito a essa renda. Na verdade, não tinha colocado de lado a hipótese de regressar a Portugal para ocupar outra vez o trono e dar novo alento aos ideais absolutistas.

 

Depois de ter estado em Itália, seguiu para Inglaterra e, finalmente, para a Alemanha, onde fixou residência e casou, em 1851, com Adelaide de Rosenberg, de quem teve sete filhos, que se espalharam, através de casamentos, por várias casas reais europeias.

 

Instalado na Alemanha, o casal tinha uma vida calma e agradável, mas repleta de dificuldades económicas. Até ao fim da vida D. Miguel recebeu visitas de amigos portugueses, que se mantiveram a seu lado, enviando-lhe donativos. Nos países por onde passara, também vivera com a ajuda de organizações que o acolheram e que suprimiram as suas faltas de dinheiro.

Vida e Reinado de D. Pedro IV (I do Brasil)

D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil (1798-1834), o Rei Soldado, reinou entre 26 de abril e 2 de maio de 1826.

 

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Filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, foi batizado com o nome de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.

 

Foram-lhe atribuídos dois cognomes. Para os portugueses o Rei Soldado, por ter tido uma participação ativa nos combates em defesa das ideias liberais. Para os brasileiros, o Libertador por, a 7 de setembro de 1822, perto do rio Ipiranga, ter lançado o grito "Independência ou morte".

 

Desde muito cedo, o jovem príncipe, que sofria de epilepsia, manifestou ter um temperamento impulsivo, bastante voluntarioso e gostava de fazer apenas aquilo que a sua vontade ditasse. D. Pedro era alto e bem constituído. Tinha a face corada, boca carnuda, olhos vivos e o cabelo era forte aos caracóis, entre o loiro e o ruivo.

 

A sua educação, ao contrário do que acontecia em relação aos príncipes herdeiros, foi muito descurada. Muito deficiente, de facto, tendo D. Pedro ocupado os seus dias em cavalgadas e caçadas, deixando para segundo plano os estudos. As primeiras letras foram-lhe ensinadas pelo mestre Monteiro da Rocha, ainda em Portugal. No Brasil, teve como mestres o poliglota João Rademaker e, após a morte deste, o frei António da Arrábida, de cujas lições o jovem fugia sempre que podia. Ainda assim, aprendeu inglês com o padre irlandês João Joyce, depois reitor do Colégio de São Patrício, e francês com Boiret, professor do Colégio dos Nobres.

 

Senhor das suas vontades, as birras eram-lhe toleradas, devido à sua condição de futuro rei, uma vez que se acreditava que, futuramente, já no trono, convinha que soubesse mandar e não obedecer. Apesar de não ter sido o primeiro filho do casal real, por morte do seu irmão D. António, em 1801, passou a herdeiro do trono.

 

Tinha D. Pedro nove anos quando a família real, devido às invasões francesas, se refugiou no Brasil. A situação afetou profundamente o futuro rei, assim como a toda a comitiva. Apesar de inicialmente contrariado e descontente com a nova casa, aos poucos foi-se afeiçoando à cidade do Rio de Janeiro, que se havia tornado na capital do reino.

 

Durante a adolescência e juventude, foi um rapaz alegre e bem disposto. Apreciador de música e poesia, chegou a compor várias obras. Algumas delas foram tocadas em cerimónias da Corte, em igrejas e até numa sala de espetáculos em Paris.

 

Perante uma personalidade tão festiva, era fácil os súbditos gostarem de D. Pedro, apesar de lamentarem a sua falta de educação, defeito esse que o próprio reconhecia. Tinha perfeita consciência das suas falhas. Quando apresentou o seu primogénito, D. Pedro terá proferido a seguinte afirmação: "Este será inteligente!...".

 

Aos 19 anos casou com a filha do imperador da Áustria, Francisco I (II da Alemanha), a princesa Leopoldina, que lhe deu sete filhos. Apesar da aparente boa relação que mantinha com a esposa, era um homem dado a paixões e não se coibia de dar azo aos seus sentimentos. Teve vários romances com damas da corte, cantoras e bailarinas. De entre todas, aquela que parece ter conquistado, de facto, o seu coração foi Domitília de Castro, a quem deu o título de marquesa de Santos e com quem teve quatro filhos. Depois da morte de D. Leopoldina, casou em segundas núpcias com D. Amélia de Beauharnais, dama francesa parente de Napoleão, que lhe deu uma filha.

 

No domínio político, apesar de moderado, D. Pedro aderiu aos ideais liberais. Em sequência da Revolução Liberal de 1820, D. João VI regressou a Portugal, nomeando D. Pedro regente do Brasil, qualidade na qual teve de gerir o conflito entre os que pretendiam alcançar a independência e os que a repudiavam. Desobedecendo à ordem do pai para voltar para Portugal, deixou-se conquistar pelos ideais de libertação, contrários aos desejos do rei e aos interesses do reino. O seu empenho na causa que abraçara foi importante para a independência da então colónia portuguesa.

 

A 7 de setembro de 1822, perto do rio Ipiranga, declarou: "É tempo! Independência ou morte! Estamos separados de Portugal!". Para a História, o ato ficou conhecido como o "Grito do Ipiranga". Aclamado imperador do Brasil a 12 de outubro de 1822, outorgou a primeira Constituição do Brasil em 1824, mas a independência só seria reconhecida por Portugal no ano seguinte.

 

Daí em diante, nem tudo correria como D. Pedro pretendia. Ao ter aceitado a dupla entidade de imperador do Brasil e rei de Portugal, após a morte do seu pai, teve início uma série de desentendimentos com os liberais brasileiros que, para além de tudo, já tinham mais dificuldade em tolerar o feitio difícil do imperador.

 

Em Portugal, após a morte de D. João VI, a questão da sucessão ficava em aberto. D. Pedro, como filho primogénito e herdeiro natural ao trono de Portugal, tinha duas opções: permanecia no Brasil como imperador e deixava que o seu irmão D. Miguel subisse ao trono português como rei absolutista ou regressava a Lisboa para governar, aliás, como era desejo dos liberais lusos.

 

Apesar de ter governado com o título de "Rei de Portugal e dos Algarves" apenas escassos dias, D. Pedro IV tomou duas decisões de grande importância para o futuro do país: outorgou uma Constituição a Portugal e abdicou dos seus direitos a favor da filha, D. Maria da Glória, com a condição de que ela casasse com o tio D. Miguel, seu lugar-tenente, e que todo o país jurasse a Carta Constitucional que ele oferecia à nação. Poderia assim permanecer no Brasil, enquanto D. Miguel, após casar com a jovem sobrinha, governaria, de facto, mas de acordo com os ideais liberais. Porém, o irmão do imperador do Brasil, apesar de ter concordado com as condicionantes impostas e de ter jurado a Carta Constitucional, não respeitou a palavra dada e ocupou o trono como rei absoluto.

 

Ainda no Brasil, em 1831, D. Pedro abdicou da coroa brasileira a favor do seu filho, D. Pedro de Alcântara, de apenas cinco anos. O episódio que originou este acontecimento atesta o espírito impulsivo do imperador. Consta que os militares lhe pediram que cedesse na demissão de um ministro. D. Pedro, categoricamente, respondeu "Antes abdicar! Antes a morte!". De seguida, recolheu-se num quarto para, pouco tempo depois, surgir com um papel na mão, dizendo "Aqui têm a minha abdicação. Estimo que sejam felizes".

 

Liberto das suas responsabilidades, voltou-se então para o Velho Continente para defender os direitos da filha e vingar a causa liberal. Em 1832, retomou o título de duque de Bragança e fez-se regente de D. Maria II. Passou por Paris e Londres e dirigiu-se para os Açores. A 8 de julho desse ano, desembarcou com os "7500 bravos do Mindelo" na praia de Pampelido, tendo no dia seguinte entrado no Porto. A causa liberal triunfou e D. Miguel foi obrigado a assinar a Convenção de Évora Monte, a 27 de maio de 1834 e a partir para o exílio.

 

Todavia, a vitória não traria a acalmia que se poderia esperar e setores mais radicais acusá-lo-iam de complacência em relação à facção vencida, em especial ao seu irmão. Em agosto de 1834, as Cortes confirmaram a regência de D. Pedro, pouco antes de D. Maria atingir a maioridade. Vítima de tuberculose, o Rei Soldado acabou por falecer aos 36 anos, no Palácio de Queluz, no mesmo quarto que o vira nascer.

 

Se a sua vida tivesse sido um pouco menos agitada, D. Pedro teria grandes probabilidades de se tornar num dos mais notáveis monarcas compositores da nossa história. Não é novidade que a Casa de Bragança tinha uma grande apetência para as artes, em especial para a música, de que são exemplo os trabalhos de D. João IV e de D. João V.

 

Os primeiros ensinamentos que o rei-imperador recebeu em forma de notas musicais foram obtidos já no Brasil, por três notáveis compositores: o padre José Maurício Nunes Garcia, Marcos Portugal e Sigismund von Neukomm, este último considerado como o melhor aluno de Joseph Haydn.

 

Ainda hoje, as composições de D. Pedro são escutadas em algumas cerimónias, tanto em Portugal como no Brasil, tanto em manifestações de cariz religioso ou cívico. São de sua autoria o importante Credo, para solistas, coro e orquestra, Te Deum e alguns dos seus múltiplos hinos e marchas, entre os quais se destacam o Hino da Independência do Brasil e o belo Hino da Carta, que foi o hino nacional português de 1834 a 1910.

 

Como político, foi uma personalidade muito forte, odiado por uns e amado por outros. Admirador da ação de Bolívar na América do Sul, ambicionava ser libertador de povos, como o atesta a frase que proferiu quando desembarcou em Arnosa de Pampelido: "Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar".

 

Mas foi no longo e penoso cerco do Porto que as suas qualidades pessoais mais se destacaram. Com os seus homens cercados, a passar dificuldades, defendeu-se com bravura, partilhando os perigos e privações dos soldados. Com os seus homens, cavava trincheiras, acudia aos feridos e lutava como simples combatente.

 

De Alexandre Herculano surgiu a maior homenagem dada a D. Pedro IV. Considerou-o, a par de Mouzinho da Silveira, "o único homem público que deixou em Portugal uma marca inextinguível".

 

O primeiro imperador do Brasil e quarto rei de nome Pedro em Portugal foi sepultado em São Vicente de Fora mas, por vontade sua, o coração ficou na Igreja da Lapa, na cidade do Porto. Posteriormente, os seus restos mortais foram trasladados para o Brasil, exceto o coração que permanece na igreja portuguesa.

Vida e Reinado de D. João VI

D. João VI (1767-1826), o Clemente, reinou entre 1816 e 1826.

 

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Filho de D. Maria I e de D. Pedro III, nasceu no Palácio Real da Ajuda e teve como padrinho o rei de França, Luís XV. Recebeu o nome batismal de João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael.

 

Tudo indicava que o trono iria parar às mãos do seu irmão mais velho, D. José, que havia sido educado pelo marquês de Pombal. Mas a morte do príncipe herdeiro veio colocá-lo à frente na linha de sucessão. Porém, na realidade, esta condição não alterou a sua personalidade, que continuava a não dar sinais de qualquer propensão para as necessidades governativas.

 

Devido ao seu temperamento e às carências intelectuais, não era visto por muitos como um homem talhado para governar. Mas, em 1792, quando a mãe enlouqueceu, foi-lhe dada interinamente a direção régia, tendo assumido a regência de direito em 1799. Depois da morte de D. Maria I, ascendeu definitivamente ao trono.

 

Apesar de não ter tido uma instrução tão cuidada como a do falecido irmão, frequentou aulas de música, de letras e de ciências. Tinha uma excelente dicção e falava bem o português. Os seus hobbies centravam-se na ópera e na música sacra – inclusive, para onde se deslocava, levava os seus músicos e também os seus padres. As missas solenes, acompanhadas de vários cantores e instrumentistas, constituíam uma das suas grandes paixões.

 

Do seu rosto, diz-se, sobressaía uma expressão bondosa e, de certa forma, deixava transparecer uma atitude decidida, bem intencionada e simples. Era ainda uma pessoa pontual e apreciadora das etiquetas do protocolo. Tinha grande capacidade para perdoar e era genuinamente bondoso, tendo sido, por isso, cognominado de o Clemente.

 

Os historiadores, perante a personalidade e até a governação deste soberano, têm apresentado opiniões diferentes e contraditórias. Para uns, o monarca era demasiado hesitante, tímido e desconfiado. Para outros, apesar de não ter uma personalidade exuberante, conseguia ser hábil e demonstrar a intuição necessária para se moldar às novidades e mudanças mundiais a que se assistiu no seu reinado.

 

Cedo casou com a filha de Carlos IV de Espanha, D. Carlota Joaquina. Conhecida ficou a incompatibilidade de feitios dos cônjuges, que pouco tinham em comum, com exceção dos filhos. Eram conhecidas as desavenças públicas entre o casal, já que D. Carlota Joaquina considerava o marido fraco e benevolente.

 

D. João VI reinou numa época conturbada. Sempre fiel à aliada Inglaterra, recusou aceitar o Bloqueio Continental imposto por Napoleão Bonaparte. Em consequência, as tropas francesas, comandadas por Junot, invadiram Portugal, em 1807, pelo que o monarca português embarcou com a corte para o Brasil. Por motivos de segurança, mas também por questões pessoais, D. Carlota Joaquina e o marido viajaram em barcos separados.

 

No Brasil, o Clemente foi um soberano amado e compreendido pelo povo. A empatia entre o monarca e o povo brasileiro deu-se logo à chegada a Terras de Vera Cruz, onde foi recebido com uma festa de arromba. Os brasileiros vestiram as suas melhores roupas para receberem a Família Real. Foram hasteadas bandeiras portuguesas e o ambiente festivo era completado pelo som dos toques de clarim, charangas e fogo de artifício.

 

Em 1808, o rei abriu os portos brasileiros ao comércio com as nações amigas. De certa forma incompreendido em Portugal, foi no Brasil que o soberano se sentiu, finalmente, acarinhado pelo povo. Por Terras de Vera Cruz, modificou os hábitos culturais que aí existiam, já que a corte manteve as suas preferências e pequenos luxos de cariz europeu.

 

Conhecida era a perdição do monarca por manjares suculentos, sem os quais a sua vida se tornava bem menos interessante. Manteve as tradições gastronómicas portuguesas, ao mesmo tempo que soube apreciar os pratos brasileiros.

 

Em 1815, D. João VI elevou o Brasil à condição de Reino Unido ao de Portugal e dos Algarves. Já prevendo que a independência seria inevitável, preocupou-se em fazer com que a Casa de Bragança estivesse ligada aos dois países, tendo determinado: "Pedro [seu filho, futuro rei D. Pedro IV de Portugal e imperador Pedro I do Brasil], se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás-de respeitar, do que para alguns desses aventureiros". Acabou, inclusive, por reconhecer a independência do Brasil (em 1825). Acima de tudo, amou o povo brasileiro.

 

De recordar ainda que, no seu reinado, a bandeira sofreu alterações alusivas ao reino do Brasil. Por detrás do escudo, foi colocada uma esfera armilar de ouro em campo azul (como símbolo do Brasil) e sobre ela figurava uma coroa real fechada. Por tudo o que deu e recebeu, costuma dizer-se que este soberano fez o Brasil mas o Brasil também o fez a ele.

 

Em 1821, em consequência da situação que se vivia no país devido à revolução liberal, o monarca teve de regressar novamente em Portugal. No seu país, foi recebido com grande entusiasmo popular. Mas, desde o primeiro minuto, também soube que tinha à sua espera um tipo de condução política mais fechada daquela a que estava habituado no Brasil.

 

D. João VI jurou a Constituição Liberal, promulgada em 1822, e teve de conviver com a oposição da esposa e do filho D. Miguel. Em 1823, enfrentou a insurreição absolutista de D. Miguel. Conseguiu a submissão do filho, mas acabou por ceder e suspender a Constituição Liberal.

 

Este monarca, conhecido por ser uma pessoa afetuosa e interessada pelos familiares, confrontou-se com muitas preocupações nos seus derradeiros anos de vida. A perda do seu querido Brasil e as insurreições do filho D. Miguel terão sido os fatores que mais contribuíram para o debilitar. Viveu rodeado de intrigas palacianas, algumas das quais conduzidas pela mulher e por D. Miguel. Contou, principalmente, com o apoio de uma das filhas, D. Isabel Maria, que lhe fez as últimas vontades e o acompanhou.

 

Atualmente, suspeita-se que D. João VI tenha sido assassinado. Numa análise aos seus restos mortais, investigadores portugueses detectaram uma alta concentração de arsénico, o que indica que o rei foi envenenado. Jaz em São Vicente de Fora, tal como outros monarcas da Dinastia de Bragança.

Vida e Reinado de D. Pedro III

D. Pedro III (1717-1786), o Edificador, reinou entre 1777 e 1786, em direito de sua esposa a rainha D. Maria I.

 

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Filho do rei D. João V e de D. Maria Ana de Áustria, tornou-se D. Pedro III quando a sua esposa e sobrinha, D. Maria I, em 1777, subiu ao trono, conferindo-lhe o título de rei.

 

Da sua vida antes do matrimónio pouco se sabe, para além do facto de ter tido como mestre de matemática o engenheiro Manuel da Maia.

 

Os relatos que chegaram aos nossos dias descrevem-no como uma pessoa de fraca personalidade e um tanto apagado. Sempre foi o preferido do pai, em detrimento do primogénito D. José, ao ponto de D. João V manifestar o desejo de D. Pedro subir ao trono.

 

A 6 de junho de 1760, contraiu matrimónio com D. Maria, uma união promovida por D. José. Apesar da grande diferença de idades (D. Maria tinha apenas 26 anos e D. Pedro, 43), a amizade que nutriam um pelo outro contribuiu para que este fosse um casamento feliz, em que o casal estava unido por uma grande afeição.

 

Durante o reinado de D. José, o casal viveu no Palácio de Queluz, uma construção sumptuosa mandada erguer por D. Pedro. Este afastamento foi ditado pela grande animosidade que o casal nutria pelo marquês de Pombal, tendo este chegado a tentar afastar D. Maria da sucessão do trono.

 

Quando a princesa subiu ao trono, chamou para junto de si o marido, com o intuito de o aproximar do governo de Portugal. Contudo, D. Pedro III dedicou-se, quase exclusivamente, às questões religiosas e exerceu pouca influência na governação do país durante os nove anos que reinou.

 

O centro das atenções do monarca foi, sem dúvida, o Palácio de Queluz, que muitas vezes tem sido comparado, com as devidas distâncias, com o Palácio de Versalhes. A construção foi iniciada em 1747 e surgiu a partir de um antigo palácio rural dos marqueses de Castelo Rodrigo. Atualmente, classificado como Monumento Nacional, começou a ser adaptado a residência de veraneio da família real.

 

D. Pedro III fez questão de se empenhar pessoalmente na remodelação do edifício e zonas circundantes, inspirado no já referido Palácio de Versalhes. O corpo principal do edifício, erigido até 1758, foi completado após o casamento com a sobrinha. Por essa altura, os opulentos salões foram enobrecidos, bem como os jardins palacianos, onde se destacam os fontanários barrocos, as estátuas e os vários recantos para momentos de lazer.

 

A relação de D. Pedro III com a esposa era, de facto, muito boa. Para comemorar o primeiro aniversário da coroação da rainha, mandou construir em Queluz, pelo arquiteto Inácio de Oliveira Benevides, o Real Teatro da Ópera, atual Palácio da Guarda.

 

Enquanto rei, o Edificador não mostrou grande interesse nas questões governativas. A exceção à regra foi o seu empenho na reabilitação dos nobres perseguidos pelo marquês de Pombal e o empenho na restauração da Companhia de Jesus.

 

D. Pedro III foi também grão-prior do Crato e cavaleiro da Ordem do Tosão de Ouro.