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Torre de Babel

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Vida e Reinado de D. Manuel II

D. Manuel II (1889-1932), o Desventurado, reinou entre 1908 e 1910.

 

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Filho de D. Carlos e de D. Amélia, não esperava ter de assumir aos 18 anos as responsabilidades inerentes a um monarca, até porque estava a preparar-se para ser oficial da Marinha. Porém, foi empurrado para a liderança do país já que, durante o Regicídio, a 1 de fevereiro de 1908, também faleceu o seu irmão, o príncipe herdeiro D. Luís Filipe.

 

De um dia para o outro, a vida do jovem D. Manuel sofreu grandes mudanças. Entre outros aspectos, a família mais próxima passou a resumir-se à mãe e à avó, D. Maria Pia de Sabóia. Durante o atentado a seu pai, também foi ligeiramente ferido no braço, tendo recebido todos os cuidados. Esta preocupação, porém, justificou-se plenamente pela abrangência do ato em que a família real esteve envolvida.

 

Apesar de ninguém ter previsto que D. Manuel poderia tornar-se rei, a sua educação foi cuidada e rigorosa. Era um "devorador" de livros, sendo exímio no estudo e na investigação histórica. Teve uma educação moral e física bastante cuidada, tendo sabido aproveitar os ensinamentos dos seus mestres. Tocava primorosamente órgão, sendo a música um dos seus hobbies.

 

Nas palavras do marquês do Lavradio, seu secretário, o monarca era muito mais instruído do que os outros rapazes da sua idade, mas faltava-lhe capacidade para reinar. O mesmo nobre manifestou ainda a seguinte opinião: "Estruturalmente honesto, desejoso de acertar, entregou-se confiadamente nas mãos dos políticos, que provaram a sua incapacidade e deixaram cair a monarquia". Esta afirmação, de certo modo negativa, sobre a capacidade governativa de D. Manuel II foi posta em causa por aqueles que viam no monarca uma pessoa perspicaz – conhecedora dos que à volta dele se movimentavam, mas que sabia manter-se acima das intrigas.

 

D. Manuel II não costumava utilizar o facto de ser rei para se vangloriar perante aqueles que o rodeavam. Foi um soberano conciliador. Preocupou-se em moderar de forma equidistante os grupos que atuavam na cena política da época, tendo mantido a fidelidade à Carta Constitucional. João Franco foi afastado do governo do reino, tendo o monarca apostado em Ferreira do Amaral, a quem destinou o "ministério da Aclamação", que deveria recuperar a tranquilidade social e política e apaziguar o reino.

 

Os problemas que se mantiveram durante o seu reinado levaram a que os republicanos passassem a sua mensagem sem grandes entraves. O mote era: "O mal estava na monarquia decadente. Só a república podia salvar o país!".

 

Na noite de 3 de outubro de 1910, realizou-se o último jantar oficial do rei, com a presença do marechal Hermes da Fonseca, presidente do Brasil, e alguns ministros e representantes do corpo diplomático. Durante a cerimónia, D. Manuel II não sabia que restavam poucas horas para o Palácio de Belém se converter na sede de um Portugal republicano.

 

Precisamente a 5 de outubro de 1910 deu-se a implantação da República, proclamada da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. A família real, que se encontrava no Convento de Mafra, embarcou na praia da Ericeira rumo ao Porto, mas o comandante da embarcação convenceu o monarca a alterar os planos e seguir viagem para Gibraltar para pôr as restantes pessoas que se encontravam a bordo do Amélia a salvo.

 

Ao saber da dimensão que a revolta republicana tinha atingido, D. Manuel desistiu de regressar ao país e passou a viver em Inglaterra. Perdeu o título, mas manteve aquilo que a monarquia lhe deu e ele soube aproveitar. Era um verdadeiro poliglota e falava corretamente várias línguas, sendo o francês o seu segundo idioma (desde os seis anos que lia, escrevia e falava francês).

 

Em 1913 casou com a prima, Augusta Vitória. Foi também no exílio que o último rei de Portugal reuniu uma preciosa biblioteca. Dedicou-se aos estudos bibliográficos, sobretudo, que incidiam em obras portuguesas dos séculos XV e XVI, tendo publicado em três volumes um catálogo sobre os livros antigos denominado Catálogo dos Livros Antigos Portugueses da Biblioteca de Sua Majestade Fidelíssima.

 

Com a Primeira Guerra Mundial, mesmo no exílio, D. Manuel esteve sempre atento aos ideais monárquicos portugueses: vestiu a farda da Cruz Vermelha Internacional, subsidiando e acompanhando feridos de guerra.

 

Aquando da sua morte, os restos mortais de o Desventurado foram transladados para Lisboa. Jaz em São Vicente de Fora, tal como muitos outros monarcas da Dinastia de Bragança.

 

Quando faleceu legou a Portugal grande parte do seu património, no qual se incluíam, entre outros, palácios, propriedades, jóias e livros.

Vida e Reinado de D. Carlos

D. Carlos (1863-1908), o Diplomata, reinou entre 1889 e 1908.

 

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A inconfundível paixão pelo mar e pela pintura é um dos traços mais marcantes da multifacetada personalidade de D. Carlos de Bragança, o penúltimo rei de Portugal. Filho primogénito de D. Maria Pia de Sabóia e de D. Luís, chamava-se Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Francisco de Assis José Simão.

 

D. Carlos foi educado para ascender ao trono, tendo os pais feito questão de participarem ativamente na sua instrução. Em paralelo, foi acompanhado de perto por especialistas. Com Júlio Joubert Chaves, por exemplo, aprendeu as primeiras letras e no desenho foi seu mestre Teodoro da Mota. Seguiu-se o latim, o grego, a geografia, a história e o alemão. Foi também um aluno atento às lições de música, ginástica, física, pintura e zoologia. Chegou, inclusive, a conviver com a elite cultural e intelectual da sua geração, que incluía o grupo dos Vencidos da Vida.

 

Desde cedo, manifestou uma inclinação muito especial para as artes, para o desporto e para as atividades ligadas à natureza. Em particular, destacava-se a devoção ao mar – herdada do pai –, que acabou por marcar a sua obra científica e artística. Colaborou em diversas investigações oceanográficas, principalmente a bordo do iate Amélia. A 1 de setembro de 1896, iniciou a primeira de 12 campanhas oceanográficas na costa nacional, com vista a analisar a fauna marinha.

 

Sabendo ser a atividade piscatória fundamental para Portugal, o monarca dedicou-se à catalogação dos peixes e das aves, tendo publicado o Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal. Foi gratificado a nível internacional pela Sociedade Zoológica de Londres, pelo Museu de História Natural de Paris e pela Sociedade Espanhola de História Natural. Na sua presença, foi inaugurado, a 20 de maio de 1898, o Aquário Vasco da Gama, onde se encontra parte do seu espólio. Ficou também reconhecido pelas aguarelas e pastéis, sendo assinaláveis as suas representações do mar português.

 

D. Carlos foi um homem de muitos gostos e, indiscutivelmente, um bom observador. Nas caçadas, outro dos seus passatempos, vestia um traje de caçador alentejano. Em público, e para quem não o conhecia, o rei era contido, parecia ter uma máscara que o tornava altivo e impenetrável. Era corpulento e tinha bom trato. Na vida privada, era uma pessoa afável, terna, bondosa e humilde.

 

A 22 de maio de 1886, casou com D. Maria Amélia de Orleães, filha dos condes de Paris. A rainha desempenhou um papel importante na assistência aos tuberculosos. A criação do Museu dos Coches também teve o seu cunho. Como D. Carlos gostava particularmente de Cascais, o casal passou aí bons momentos. Do matrimónio nasceram D. Luís Filipe, que viria a ser assassinado com o pai, D. Maria, que teve poucas horas de vida, e D. Manuel, futuro D. Manuel II, último rei de Portugal (1908-1910).

 

Em 1889, D. Carlos assumiu o trono português, reinado que praticamente se iniciou com o ultimato inglês (1890), motivado pelo conhecido Mapa Cor-de-Rosa, que obrigou os portugueses a abandonar vários territórios africanos. Mais tarde, foram normalizadas as relações com a Inglaterra e reatadas as ligações com o Brasil.

 

O soberano teve o mérito de devolver a Portugal o prestígio a nível internacional, conseguindo trazer às terras lusas vários reis e chefes de Estado, entre eles Eduardo VII de Inglaterra, o imperador Guilherme da Alemanha, Afonso XIII de Espanha (1903) e Emílio Loubet, presidente de França (1904). D. Carlos também visitou diversos países, tendo sido especialmente bem acolhido em França. Era bastante admirado no estrangeiro e tido como excelente diplomata.

 

Ao longo do reinado, enfrentou graves problemas políticos, que muito influenciaram o enfraquecimento do regime monárquico e possibilitaram o reforço do ideal republicano. Assistiu, aliás, à primeira tentativa de implantação da República, a 31 de janeiro de 1891, que ocorreu no Porto.

 

O seu reinado ficou marcado por um parlamentarismo rotativo que não garantiu estabilidade política. Em 1906, permitiu o avanço de João Franco para a chefia do governo, o qual, pondo de parte anteriores promessas de descentralização da máquina administrativa e de liberdade de imprensa, se lançou numa ditadura, encerrando com a Assembleia Legislativa. A partir desse ano, D. Carlos praticamente não governou.

 

A repressão de João Franco não agradou a republicanos, mas também não conseguiu grandes adeptos entre os monárquicos, que queriam manter a defesa das liberdades constitucionais. Assim, o rei enfrentou diversas greves e fortes críticas por parte da imprensa, devido, sobretudo, aos adiantamentos à Casa Real e à repressão política, vendo muitos monárquicos a passarem para as hostes republicanas.

 

A situação ganhou contornos mais preocupantes quando foi descoberta, em janeiro de 1908, uma conspiração contra a Coroa. Foram efetuadas diversas detenções, que no entanto não travaram o sentimento republicano. Com o clima de tensão a agravar-se, a 31 desse mês, D. Carlos assinou o decreto que permitia a deportação do reino para os opositores ao regime. No dia seguinte, os acontecimentos precipitaram-se e deu-se o Regicídio.

 

Vindo do Paço Ducal, em Vila Viçosa, apesar da instabilidade política e social, D. Carlos optou por seguir na carruagem real, o que se revelaria fatídico naquele fim de tarde do dia 1 de fevereiro de 1908. Como de costume, o povo aglomerava-se nos passeios, escondendo, sem o saber, dois embuçados (Manuel Buíça e Alfredo Costa) que, à saída do Terreiro do Paço, dispararam certeiramente contra o rei e o seu filho, D. Luís Filipe, que não resistiram.

Vida e Reinado de D. Luís

D. Luís (1838-1889), o Popular, reinou entre 1861 e 1889.

 

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D. Luís foi o segundo filho da rainha D. Maria II e de D. Fernando II. O trono de Portugal foi-lhe entregue depois da morte do seu irmão D. Pedro V, mais velho do que ele cerca de um ano.

 

A história cognominou-o de o Popular, mas as suas aptidões podiam ter-lhe consagrado outro cognome. Teve uma vida de estudioso, de artista e, segundo testemunhos da época, também de amores. Era detentor de uma personalidade moderada e tolerante, tendo sido, durante o seu reinado, mais uma figura de cultura do que política. Os jogos políticos não o seduziam e em nada se adequavam ao seu espírito conciliador e prudente.

 

Destinado à carreira da Armada, a sua educação foi rigorosa, tendo ficado sob a responsabilidade de mestres qualificados da época. Dedicou muito do seu tempo aos estudos, mas nada mais o satisfazia do que a arte, para a qual revelou uma grande sensibilidade. O desenho e a pintura fizeram parte da sua formação, devido à influência de D. Fernando, do qual, também, herdou a veia de rei-artista. A pintura veio, assim, a fazer parte da sua vida, tal como a música. Compunha e tocava piano e violoncelo.

 

O domínio de várias línguas e o seu gosto pela literatura levaram-no a traduzir obras para português. As suas traduções de Shakespeare – Hamlet, O Mercador de Veneza, Ricardo III e Otelo – feitas entre 1875 e 1885 e reeditadas em 1956, pela Fundação da Casa de Bragança, foram o seu principal legado.

 

Apesar da arte ser a sua paixão, D. Luís alimentava outros prazeres. Contemplava o mar e, porventura, era nele que buscava inspiração para a sua pintura e música. Também apreciava uma boa refeição, sempre acompanhada com pão e manteiga, e ao fim do jantar acendia um charuto.

 

D. Maria Pia de Sabóia, filha de Vítor Manuel II, rei de Itália, foi a noiva escolhida pelo monarca. Deste matrimónio, realizado em 1862, nasceram D. Carlos – futuro rei de Portugal – e D. Afonso.

 

O monarca encontrou nesta companheira de vida uma esposa fiel e uma mãe dedicada, mas, acima de tudo, uma mulher com uma personalidade muito vincada. Segundo relatos da época, D. Maria Pia chegou a enfrentar o marechal-duque de Saldanha, após o golpe militar, por este ter ofendido o rei. Também se contava que ao tomar conhecimento do incêndio no teatro Baquet, no Porto, se deslocou para lá, apesar do mau tempo que se fazia sentir, para ajudar as vítimas.

 

A determinação e coragem da rainha foram comprovadas na forma como lidou com os casos amorosos do marido. Constava que, por vezes, perdia a sua postura elegante e, alimentada pelos ciúmes, adotava comportamentos furiosos com as mulheres que lhe poderiam estar a roubar o afeto do marido. D. Maria Pia não conseguia sofrer em silêncio e, como boa italiana que era, depressa a sua meiguice se transformava em ira quando se sentia ameaçada.

 

Sobre o rei, a esposa dizia que, embora fosse um homem calmo e conciliador, que apreciava o acolhimento do lar, "era um pouco doido, aludindo a certas aventuras de amor". E, apesar de ter tentado levar uma vida discreta, nem sempre o conseguiu. Atribuiu-se ao soberano uma relação amorosa com a esposa de um conhecido oficial do exército e uma outra com a atriz Rosa Damasceno. Embora tivesse tentado mantê-las em segredo, estas acabaram por se tornar públicas. Deste último caso, contava-se que numa das noites em que o monarca foi ter discretamente com a atriz, o silêncio foi interrompido pelo hino real tocado em piano. A partir de então, a mesma música repetiu-se sempre que D. Luís a visitava.

 

Mesmo sabendo que o marido a traía, D. Maria Pia manteve-se fiel ao seu papel de esposa e, na hora da morte do rei, mais uma vez, revelou-se uma mulher de grande fibra. Presenciando a doença que incapacitava o marido, nunca o abandonou nos últimos momentos de vida. Colocou-se ao lado dele, de dia e de noite, a confortá-lo, quando se encontrava em permanente estado de agonia e dolorosamente consciente. Falava-lhe carinhosamente em italiano, segurando as suas mãos, e refrescava-lhe o rosto, na tentativa de lhe aliviar um pouco a dor.

 

O sofrimento permanente do rei foi sentido por toda a família e pelos íntimos da corte. O filho D. Carlos, numa carta dirigida ao seu secretário particular, o conde de São Mamede, escreveu: "Isto aqui vae de mal a peior, creio que se passar d'hoje, já com certeza não passa d'amanhã – estou profundamente triste". D. Luís faleceu virando o rosto para o mar que tanto admirava. A rainha sobreviveu-lhe, mas tempos difíceis se seguiram. D. Maria Pia, assistindo ao assassinato do filho, D. Carlos, e do neto, D. Luís Filipe, enlouqueceu.

 

Infelizmente, nem mesmo depois da morte do soberano a família real se libertou do fantasma dos seus amores extraconjugais. Logo que assumiu o trono, D. Carlos recebeu uma carta de uma amante secreta do pai: "Sou casada com um dos mais distinctos do exército, sou mãi, tenho uma posição definida na sociedade e quis o mal fadado distino que tivesse tido a fraqueza de ter tido amores com sua Magestade o Senhor D. Luiz!".

 

Apesar da carta lhe ter sido entregue nos primeiros dias de fevereiro de 1890, esta já havia sido escrita antes da morte do pai. Confrontado com este acontecimento, D. Carlos quis logo saber de quem se tratava e pediu ao conde de São Mamede para se incumbir dessa tarefa. Embora a identificação da amante não tenha sido revelada, sabe-se, contudo, que escreveu a carta numa atitude desesperada, devido à ausência de notícias.

 

As intervenções escassas e prudentes de o Popular não podem ser interpretadas como um alheamento dos assuntos políticos. A postura que manteve ao longo do reinado refletiu a sua personalidade e, por isso, deve antes ser visto como um exemplo de monarca constitucional. Sempre respeitou as liberdades públicas e defendeu a integridade do Reino.

 

Apesar de ter desempenhado as funções reais com prudência, o seu reinado não escapou a algumas agitações políticas e culturais. No plano político, ocorreu, em 1868, o levantamento popular – Janeirinha –, que contestava o agravamento dos impostos. As suas consequências vieram a ser desastrosas, levando, inclusive, à queda do Ministério de Joaquim António de Aguiar. Pouco tempo depois, a paz do Reino veio a ser novamente perturbada com a insurreição militar do marechal-duque de Saldanha – a Saldanhada –, que reivindicava a demissão do governo e a entrega do poder.

 

Foi também durante o reinado de D. Luís que se assistiu ao aparecimento do Partido Progressista, pela fusão dos Partidos Histórico e Reformista, iniciando, assim, o rotativismo governativo entre este partido e o Regenerador.

 

No que se refere às perturbações populares, salientou-se a Questão Coimbrã, que colocou frente a frente a velha e a nova geração literária, e a interrupção, pelo governo, da atividade das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, a qual esteve rodeada de várias personalidades, entre as quais Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de Queirós.

 

Apesar destes acontecimentos, os 28 anos que D. Luís ocupou o trono foram, numa visão geral, de acalmia e de prosperidade em vários domínios. O seu reinado foi rico em termos de obras públicas do fontismo. Assistiu-se ao alargamento de estradas, linhas férreas, túneis e de diversas inaugurações, como das pontes D. Maria Pia e D. Luís, ambas no Porto.

 

No plano cultural, realizaram-se as comemorações do tricentenário da morte de Camões e foram publicadas obras literárias, que ainda hoje são consideradas exemplos singulares. A imprensa conheceu um período de desenvolvimento com a fundação de novos jornais, como, por exemplo, o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, O Primeiro de Janeiro, O Século e a Ilustração Portuguesa.

 

Para além disso, registaram-se em Portugal avanços técnicos e científicos, bem como diversas iniciativas de caráter económico, como a Exposição Internacional do Porto. A governação de D. Luís também ficou marcada por medidas que contribuíram para o progresso moral do país, destacando-se a abolição da pena de morte para os crimes civis.

 

A nível externo, salientou-se a política aplicada em torno da exploração e da defesa dos interesses em África. Realizaram-se várias expedições ao território africano, por Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Henrique de Carvalho, com o intuito de alargar o domínio português. Em consequência desta expansão ultramarina surgiu a Conferência de Berlim e, depois, o célebre mapa cor-de-rosa.

Vida e Reinado de D. Pedro V

D. Pedro V (1837-1861), o Esperançoso, reinou entre 1855 e 1861.

 

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Filho primogénito da rainha D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, é provável que na monarquia portuguesa não tenha existido um príncipe tão bem preparado para governar como D. Pedro. Tanto D. Maria como D. Fernando fizeram questão de que o jovem, na companhia do irmão D. Luís, viajassem pela Europa, tendo por fim alargar os horizontes dos príncipes. Assim, D. Maria projetou um longo plano de estudos para os filhos, que terminaria com uma longa viagem pelos países onde estivera exilada.

 

Aos 10 anos de idade, foi ministrado ao futuro D. Pedro V o estudo de latim através de Martins Bastos. Dois anos depois, dominada a língua, já traduzia autores latinos e escrevia cartas nessa língua. Prosseguiu, então, com os estudos de grego, retórica e filosofia, ministrados por António José Viale, e inglês, ensinado por Grovely. Apesar de ter revelado notáveis capacidades nas letras, o príncipe tinha uma notória aversão à matemática, disciplina na qual nunca se salientou.

 

D. Maria II morreu em 1853, ao dar à luz o seu décimo primeiro filho. De uma forma inesperada, D. Pedro foi proclamado rei, aos 16 anos. Perante a menoridade do filho, D. Fernando assumiu a regência do reino durante dois anos, até o legítimo herdeiro completar 18 anos.

 

No seguimento dos desejos manifestados pela mulher, D. Fernando foi extremamente cuidadoso com a educação de D. Pedro, ao prepará-lo para o cargo de rei, complementando a formação do príncipe com aulas de pintura e de desenho.

 

Um ano depois da morte da mãe, D. Pedro visitou, com o irmão D. Luís, a Inglaterra, a Bélgica, a Alemanha, a Holanda e a Áustria. Em 1855, entrou em contato com a realidade vivida em França, no reino de Nápoles, na Santa Sé e na Suíça. Estas viagens vieram complementar os ensinamentos valiosos dos professores, de entre os quais se destaca Alexandre Herculano. Desta forma, o monarca tinha um conhecimento sem par da arte de governar, tanto no nosso país como além-fronteiras.

 

D. Pedro V foi, de facto, um homem de superior inteligência e de excepcional cultura, como o atestam o Diário que escreveu no decorrer das suas viagens pela Europa, os artigos que publicou nas revistas Militar e Contemporânea e pelas cartas de grande valor literário que enviou ao conde de Lavradio e ao príncipe Alberto de Inglaterra.

 

Era um jovem com uma personalidade muito forte e equilibrada, extremamente culto e ciente das responsabilidades que tinha ao seu cargo. Infelizmente, não teria tempo nem a tranquilidade necessária para poder mostrar tudo aquilo que tinha para oferecer aos súbditos.

 

A 29 de abril de 1858, D. Pedro V casou com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen por procuração, assinada em Berlim, na igreja de Santa Edviges. A princesa chegou a Portugal pouco tempo depois e, a 18 de maio do mesmo ano, celebrou-se o enlace real em Lisboa.

 

A simpatia e bondade da nova rainha cativaram desde logo o povo português. Também o rei se enamorou por D. Estefânia, amor esse que era correspondido pela esposa, que lhe retribuía as atenções com a afirmação de que eram feitos um para o outro. Porém, este estado de graça durou pouco tempo. A 17 de julho de 1859, a jovem rainha faleceu vítima de difteria, o que provocou um enorme golpe no monarca.

 

O casal não teve filhos e D. Pedro V não voltou a casar, deixando por resolver a questão da sucessão. Em homenagem à rainha amada, o rei fundou, em Lisboa, o hospital que foi batizado com o nome da esposa.

 

Como governante, D. Pedro V foi um liberal de espírito moderado, tendo-se distinguido pela superior consciência dos problemas do país. Estudava com minúcia as deliberações governamentais propostas, para que ninguém o pudesse acusar de assinar algo de que não tinha conhecimento. Este tipo de postura perante a governação do país revelou que o monarca se recusou a ser um mero "rei-carimbo".

 

D. Pedro governou, de facto, de uma forma individualizada, o que lhe valeu uma grande popularidade. Exemplo da atenção que dava às opiniões e queixas dos seus súbditos foi a resolução inédita de colocar, à porta da residência real, uma "caixa-verde", fechada, da qual apenas o monarca tinha a chave, onde as pessoas podiam deixar as suas queixas.

 

As iniciativas estatais que visavam o desenvolvimento do país recebiam o apoio e, em alguns casos, o patrocínio de D. Pedro V. Também as questões de dignidade humana preocupavam o soberano. Durante o seu reinado foram abolidos os castigos corporais. Apesar de não apreciar totalmente as decisões governativas de Fontes Pereira de Melo, apoiava as suas iniciativas de progresso, espelhadas na inauguração da primeira via férrea, de Lisboa ao Carregado.

 

Durante o seu reinado, foram criadas também muitas escolas de ensino primário, algumas das quais eram financiadas pela Coroa. Consciente da necessidade do ensino das letras a um nível superior, a D. Pedro se deve a criação do Curso Superior de Letras (atualmente a Faculdade de Letras). De entre os professores que ministravam o curso, constava Rebelo da Silva, amigo do monarca, que por vezes assistia às suas aulas.

 

Foi igualmente durante o reinado de D. Pedro V, e com a sua colaboração, que foi criado o Observatório Astronómico da Ajuda e se efetuou a introdução do telégrafo elétrico para o estrangeiro e do sistema métrico. Foram ainda construídas numerosas estradas e empreendimentos notáveis para o progresso económico do país.

 

Porém, nem tudo correu bem durante o seu reinado. O monarca pôs à prova toda a sua habilidade diplomática em questões como os melindrosos diferendos com a Inglaterra pelos domínios em África e o humilhante litígio da questão do apresamento do navio francês Charles et Georges. Todas estas questões foram resolvidas por D. Pedro V tendo em mente o bem estar da nação e a manutenção da paz com os outros países.

 

Também as epidemias e desastres naturais que assolaram o reino puseram à prova D. Pedro V que, perante tamanha adversidade, conseguiu conferir alguma tranquilidade aos portugueses. O país foi, entre 1853 e 1857, assolado por duas epidemias, a cólera-morbo e a febre amarela. Seria de esperar que, para se proteger, o monarca se isolasse dos locais de contágio. A sua atitude foi exatamente contrária. O rei fez questão de passar pelos vários hospitais do reino, e mantinha conversas com os doentes, não se coibindo de lhes pegar na mão para lhes dar um pouco de alento. Se a popularidade de D. Pedro era já de nota, a partir de então foi amplamente reforçada.

 

Poucos dias depois de ter passado uma temporada de caça em Vila Viçosa, corria o ano de 1861, o rei e os seus irmãos D. Augusto e D. Fernando adoeciam de febre tifóide, segundo o parecer dos médicos. Por sua vez, a população desconfiava que o rei e os infantes haviam sido envenenados. Esta desconfiança gerou uma amotinação por parte das gentes de Lisboa.

 

D. Fernando morreu a 6 de novembro desse ano e D. Pedro V faleceria pouco depois, com apenas 24 anos de idade. Terminava desta forma abrupta o reinado de o Esperançoso, permanecendo a sensação de que, para além de se ter perdido um grande homem, a nação não pôde usufruir, em pleno, das capacidades governativas do rei de Portugal.

Vida e Reinado de D. Fernando II

D. Fernando II (1816-1885), o Rei Artista, reinou entre 1837 e 1853, em direito de sua esposa a rainha D. Maria II.

 

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Fernando Augusto Francisco António Kohary de Saxónia-Coburgo-Gotha, filho do príncipe Fernando Jorge Augusto de Saxónia-Coburgo-Gotha e da princesa Maria Antonieta Kohary de Saxónia-Coburgo-Gotha, foi o segundo marido de D. Maria II.

 

O enlace entre D. Maria II e Fernando, celebrado por procuração, teve lugar em Coburgo, no dia 1 de janeiro de 1836, sendo ainda nesse ano ratificado em Lisboa. Assegurava-se assim a proteção da rainha, havendo esperança que da união resultasse um sucessor ao trono português, o que rapidamente se concretizou com o nascimento do filho primogénito, futuro D. Pedro V. Aliás, o casal teria uma numerosa prole de 11 filhos.

 

Chegado a Lisboa em abril de 1836, foi nomeado marechal-general do Exército português e, a 16 de setembro de 1837, aquando do nascimento do príncipe herdeiro, foi proclamado rei consorte, com o título de D. Fernando II.

 

Não se pode dizer que tenha tido um papel relevante na condução dos assuntos de Estado, embora tenha colaborado na consolidação do regime constitucional e assumido o comando do Exército em determinadas ocasiões. Junto da rainha, foi sobretudo um conselheiro, como de resto seria, mais tarde, com seus filhos, D. Pedro V e D. Luís I.

 

Os anos seguintes não foram fáceis para D. Fernando e D. Maria, cujo reinado se tornou um período de grande instabilidade política e social, marcado por diversos golpes e sublevações: a Belenzada, golpe falhado, que ocorreu logo em 1836, a revolução da Maria da Fonte, em 1846, e, por fim, o golpe do marechal-duque de Saldanha, que deu origem ao governo constitucional regenerador.

 

Por morte de D. Maria II, em 1853, D. Fernando II assumiu a regência do reino, mas, dois anos mais tarde, confiou o trono ao seu filho D. Pedro, afastando-se da atividade política.

 

Durante a sua regência teve como objetivo assegurar a total liberdade de opiniões e o verdadeiro exercício dos direitos por parte dos cidadãos, conseguindo levar Portugal a um dos períodos mais equilibrados desde o eclodir do liberalismo. Voltaria ainda ao poder durante um breve período de regência, após a morte do jovem monarca D. Pedro V, em 1861.

 

No ano seguinte, foi convidado para ocupar o trono da Grécia, proposta que recusou, tal como em 1868 se negaria a assumir o da Espanha, deixado em aberto depois do afastamento de Isabel II.

 

Dotado de grande cultura artística e literária, apreciando muito mais a vida particular à pública, D. Fernando II dedicou grande parte do seu tempo às artes nacionais, a sua verdadeira paixão. Foi protetor da Academia de Belas-Artes de Lisboa e presidente da Academia das Ciências, em 1836, e do Conservatório Real, cinco anos mais tarde. A ele se deve a salvação de importantes obras do património nacional, tendo sido o responsável pela recuperação dos mosteiros dos Jerónimos e da Batalha, assim como dos conventos de Mafra e de Tomar.

 

O rei consorte foi também um exímio colecionador de peças de arte, grande parte delas hoje conservadas nos museus nacionais, e o mecenas de muitos artistas, a quem possibilitou os estudos no estrangeiro, como, por exemplo, Columbano Bordalo Pinheiro e José Viana da Mota. A generosidade de D. Fernando II para com os artistas fez com que lhe fosse atribuído o cognome de o Rei Artista.

 

Por decisão de D. Fernando, Alexandre Herculano foi nomeado seu bibliotecário particular no Palácio da Ajuda, cargo que facilitou ao historiador o trabalho de recolha de materiais para a sua notável História de Portugal e de outros estudos igualmente importantes.

 

Casado, desde 1869, com a cantora lírica suíça Elisa Hensler, condessa de Edla, D. Fernando deixou-lhe por testamento o belíssimo Palácio da Pena, que mandara construir em Sintra, entre 1840 e 1850. Posteriormente, o palácio voltaria a ser pertença real, depois de ser comprado pelo rei D. Luís.