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Torre de Babel

Torre de Babel

Vida e Reinado de D. Sancho I

D. Sancho I (1154-1211), o Povoador, reinou entre 1185 e 1211.

 

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Filho de D. Afonso Henriques e da rainha D. Mafalda, deve-se-lhe a primeira tentativa clara e inequívoca de povoação do reino.

 

Em 1169, contava então 15 anos, passou a ter casa própria, com mordomo e alferes à sua ordem, distintos dos de D. Afonso Henriques. Um ano depois, foi armado cavaleiro pelo pai e, em 1172, aos 18 anos de idade, passou a assumir a chefia do reino. Para isso contribuiu a incapacidade física de D. Afonso I, que foi ferido em sequência do desastre de Badajoz, em 1169.

 

Segundo relatos da época, D. Sancho tinha estatura média e boa constituição. Com rosto grande, boca grossa e olhos negros, a aparência era completada pela barba e pelo cabelo castanho-escuro.

 

Aos 20 anos, ainda príncipe, casou-se. A noiva veio de Aragão e dava pelo nome de Dulce, filha de Raimundo Berenguer IV, rei de Aragão, e de D. Petronilha. O enlace, que se realizou em 1174, significou mais um passo para ombrear com a força de Leão e Castela, os dois reinos que unidos constituíam um poderoso bloco na Península Ibérica.

 

Com D. Dulce, D. Sancho teve onze filhos: Afonso (futuro D. Afonso II), Pedro, Fernando, Henrique, Raimundo, Teresa, Mafalda, Sancha, Branca, Berengária e Constança. De ligações extraconjugais nasceram Martim Sanches, Urraca Sanches, Rodrigo Sanches, Gil Sanches e Constança Sanches.

 

O início da sua governação foi marcado pelo desenvolvimento de uma intensa atividade guerreira, quer na fronteira islâmica (1174-1191) quer na leonesa (1180-1191), com os almóadas a serem o primeiro alvo das frentes de combate.

 

Depois da conquista de Cáceres (1174), que punha em perigo as praças cristãs do Baixo Alentejo, e a reocupação de Beja (1175), o então príncipe D. Sancho optou por uma política ofensiva. Em 1178, resolveu mostrar ao inimigo que o facto de o rei estar incapacitado para a guerra não retirava aos portugueses a força militar. Assim, organizou uma campanha militar na Andaluzia, que provocou uma onda de pilhagem e destruição nos arredores de Sevilha.

 

Com um regresso coberto de glória, os feitos do jovem deram ânimo aos portugueses e encheram de orgulho o coração de D. Afonso Henriques. Como resposta, deram-se as incursões almóadas de 1179 em Abrantes, de 1180 em Coruche, de 1181 em Évora e uma operação militar de grande envergadura dirigida pelo próprio sultão de Marrocos, que cercou Santarém, em 1184. Além de grave, este ataque berbere coincidia, em parte, com o recomeço das hostilidades com Leão. Em 1181, o príncipe sofrera uma pesada derrota frente às forças de Fernando II, perto de Ciudad Rodrigo, no âmbito das lutas pela posse da região de Ribacoa.

 

A 9 de dezembro de 1185, D. Sancho foi aclamado rei, mas a sua vida pouco se alterou, pois já há muito tempo que comandava os destinos dos portugueses.

 

A morte do rei de Leão, em 1188, a ausência do sultão de Marrocos em África e o apoio de uma armada de cruzados, que em 1189 aportou a Lisboa, permitiram a preparação de uma nova ofensiva contra o perigo almóada. Ainda nesse ano, foram conquistadas as praças algarvias de Alvor e Silves, ocupações destinadas a atenuar os efeitos das incursões de piratas mouros no litoral português.

 

D. Sancho I passou então a usar o título de rei de Portugal e do Algarve. Porém, o contra-ataque não demorou. Em 1190, três exércitos de Iacub Almançor cercaram Silves, Évora e, na linha do Tejo, Torres Novas e Tomar, chegando a Leiria, Alcobaça e talvez a Coimbra. Em 1191 deu-se a conquista moura de Alcácer do Sal, Palmela, Almada e Silves e, à exceção de Évora que permaneceu nas mãos dos portugueses, a fronteira com o Islão regressava de novo à linha do Tejo.

 

Paralelamente, na fronteira leonesa reacendiam-se as hostilidades, depois da rutura do contrato de casamento, feito em 1191, entre a filha do monarca português, Teresa Sanches, e Afonso IX de Leão. Na realidade, o estado de tensão devia-se principalmente ao exacerbar do complicado jogo de alianças conduzidas pelos reis de Portugal, Leão, Castela e Aragão no âmbito da delimitação das fronteiras e da tentativa de hegemonização de cada um deles.

 

Face à situação, entre 1197 e 1199, D. Sancho I levou Portugal a realizar uma campanha militar na fronteira galega, ocupando Tui e Pontevedra, a qual se seguiu uma ofensiva leonesa na Beira Alta, marcada pela vitória de Ervas Tenras, perto de Pinhel. O ano de 1199 ficou ainda assinalado pelo cerco leonês de Bragança e o ataque português a Ciudad Rodrigo.

 

Este estado de guerra permanente, sobretudo nas décadas de 80 e 90, conduziu ao desenvolvimento de iniciativas destinadas ao repovoamento das regiões fronteiriças e ao fortalecimento das ordens militares, uma tentativa de incentivar uma maior resistência às inúmeras e constantes invasões a que o reino era sujeito.

 

Para o primeiro aspecto foi necessária a atribuição de grande número de cartas de foral a povoações fronteiriças. Para atrair habitantes às regiões conquistadas, D. Sancho I concedeu benefícios a quem aí se instalasse, regalias essas que podiam ser a cedência de terras de cultivo, pastagens, dispensas de pagamento de impostos, bem como perdões de crimes. Para o efeito, assinou dezenas de cartas de foral, o que lhe valeu o cognome de o Povoador.

 

Quanto às ordens militares, concedeu importantes doações e privilégios a partir de 1170, nomeadamente à dos freires de Évora e à de Sant'Iago. Desta forma, o monarca procurava desenvolver exércitos de monges-soldados, disciplinando e profissionalizando intensamente a guerra, que adquiria cada vez mais a feição de cruzada.

 

Devido à sua habilidade política, que contrastava com os desaires militares, D. Sancho restaurou as finanças da Coroa e promoveu a cultura, tanto no país como no estrangeiro. Foi durante o seu reinado que apareceram as cinco quinas nas armas reais, as quais, com algumas alterações, persistem ainda nos dias de hoje.

 

Os seus últimos anos não foram fáceis. De 1199 a 1208, o país foi assolado por pestes, fomes e outras calamidades, o que originou um clima de ideias apocalípticas e uma anarquia quotidiana, que mais agravavam as tensões sociais. D. Sancho viu-se a braços, principalmente nas cidades, com o surgimento de motins, pilhagens, roubos e intermináveis processos judiciais, protagonizados por diversos senhores do poder.

 

Os principais conflitos travavam-se entre burgueses e oficiais régios, entre clérigos seculares e mosteiros, entre estes e as autoridades concelhias e mesmo entre os nobres e o rei. De todos, o mais grave surgiu na diocese do Porto, onde se digladiaram burgueses, cónegos, o bispo e o monarca, com lutas, arruaças, saques, prisões, interditos e intervenções papais.

 

D. Sancho I morreu nos Paços de Coimbra, onde se situa atualmente a universidade. Jaz no Mosteiro de Santa Cruz, ao lado do pai. Atribui-se-lhe a autoria de Ay eu Coitada, a mais antiga cantiga de amigo dos cancioneiros.